sábado, 1 de outubro de 2011

Cup of Coffee.



Receitas de como ser feliz, livros de auto-ajuda e imperialismo estão à venda em todos os cantos possíveis. A prostituição da ação, irremediável? Que tipo de bula entregam pra esse tipo de coisa, esse tipo de gente? Afogo-me em xícaras de café. Forte e meio-amargo, de preferência. Jogar conversas acompanhado de um bom café abstrai e suspende toda e qualquer pendência deixada para esta hora. A vida em cigarros e cafés, em preto e branco mesmo, entra e sai a todo momento. Inverno também tem muito preto e branco, café esquenta, lá fora é frio. Algumas pretensões escapam em tragadas, outras são engolidas de uma vez, queimando a língua. Sei que entre cafés e cigarros e conversas, sintonias de preto e branco em corpos anônimos. O tráfico, a clandestinidade de quem vive preto-e-branco, cafés e cigarros. As brasas ainda queimam, a língua ainda queima. Dois tons que se tocam, se expandem e dão linhas. Lineares, nem tanto.  Expresso, duplo.  Duas cores solúveis, diluídos.  Espresso, espessa.  Algo de muito particular em dissolver duas cores tão epifânicas.  Inspiração, folha em branco, silêncio, noite. Preto branco inércia.

sábado, 24 de setembro de 2011

Solitude Reticente.

Mas, agora, eu me fui. Me fui, me sou, te sou, me sinto, tu pulsas ainda. Sem carne e osso, com nome e rosto. Essa solidão que se demora, demora pra dar passos. E agora, enfim, o incômodo. Incômodo dilacerante. O peito aperta, a boca erra, os olhos choram. E aquilo que é, tem que se esconder. Os rastros caídos no chão, nem se importam com a poeira. Se põem as marcas de ranger de dentes, de lábios trincados, de lágrimas em partes, partidas. Partida. Partido. Já não aguentaria mais prender sensibilidade em palavras, em linhas curtas, em frases com pontos finais. Eu, sempre reticente. Reticências... e vírgulas. Pausas históricas, contrapontos desinformados sem saber a hora de voltar, ou se vão, mesmo, voltar. O rosto vira expressão, a face vira ambígua. O encontro com os estereótipos sofridos das areias do tempo consomem o corpo, fazem rugas, envelhecer. Envelhe-ser. As mudas de roupa, as toalhas de mesa, os copos descartáveis, os beijos em copos (beijos descartáveis?), o comedimento de ações e propostas ao delírio de um sol vermelho, como um rosto. As maçãs do rosto, o vermelho do nascente. Aquele velho e conhecido receio de que nada vai alimentar. Na verdade, re-seio.  Dobravam-se colchas, retalhos, embrenhados nos lençóis da cama. Unha e carne, lençol e cama, água. Por em gotas, contadas, cada expressão extasiada de um amanhecer arredio. Devagar, despontava. Os olhos, janelas alucinadas, esperavam, esfriavam, esquentavam, entorpeciam na entropia do sol . O sol saía do horizonte, mas não saía da cama. Parecia quente, satisfatório. Menos passos e mais olhares, menos corpos e mais prazeres. Com um pouco de tédio no gosto da boca. Entupia-se prazerosamente de sensações menos complexas e mais diretas, menos saturadas de futilidades catatônicas. Podia sempre olhar. E mais: era como se tentasse render seu desejo. Seu desejo que não havia sido, jamais. Era quase um assalto à luz, deixar-se levar pelo que via. Irrompia aquela solidão matinal, quente em sua aparição e fria em gestos. Polidez de lençol, cobrindo o corpo, dando aspas às linhas espontâneas. Interferia nos pelos, resgatava gotas, cobria o calor. Extremidades sem peso e sem lençol, cruas à luz dos raios da primeira hora.  Frêmitos quase vomitados de tão rápidos. Um suspiro náufrago, reticente.

sábado, 17 de setembro de 2011

Porque Era Ela.

    
    Era tudo meio embaçado, feito olhar na janela de um carro em dia de chuva. O riso frenético, quase incontrolável. Era quase carnaval pra um dia como aquele. Um domingo, talvez? Quem sabe. Esquinas, mil buzinas, e eu ali esperando no trânsito parado. Escura madrugada, o diário secreto dos poetas é aberto. Eu não sabia explicar, nada. Só me vieram, de volta, essas imagens antigas. Devia ser porque as palavras do diário saltavam aos olhos. Elas se faziam cinema, por si próprias. O diário. Onde todos os ocultos se mostram, se mostram ainda ocultos na lassidão de seus quereres. Um uivo sombrio de um coração que pulsa, que bate, que implora ser ouvido. Mas só a noite o escuta. Só a lua o escuta. O lamento choroso que irrompe, atravessa o desmaio delirante e se atira num penhasco. O salto alivia o vento, o peso do vento. O corpo que cai, o corpo que salta, o corpo que voa em liberdade absurda. Um corpo, de carne e osso e rosto, e nome. E fome. E ânsia. Por um instante, ela tomava um banho na minha frente. Na madrugada, ela tomava banho de lua. Foi assim que cheguei ao café. 
    O café borrava o batom dela. Quente e breve, como o cafezinho, ela me olhava. Eu apenas devolvia o olhar, num jogo de desejos que se chutava embaixo da mesa. Não cabia, ali naquela casa, meu olhar mendigo. Olhava pra ela, devolvia seu olhar em meus olhos. Seu olhar melhorava o meu. Ela me sorria, me olhava, me chutava, me assombrava com a sombra dos olhos. O diário, janela a fora.

- Me leva pra andar, por aí.
- Quer ir comigo?
- Quero. Não posso ficar aqui, mais.
- O diário está aberto.
- Escrevamos a próxima página, nós dois.

    Madrugada a dentro, linhas foram escritas. Os lábios se flagravam juntos. Os meus, ainda e sempre, alguns instantes eram bastantes lascivos, os dela molhavam. 

- Abre a porta, pra noite passar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A Chuva de Setembro



Agosto foi um mês de árvores. De raízes fundas, e de muita chuva. Agostos ríspidos, ultimamente... por dentro e por fora. Aquela sensação insalubre na rotina. Um gosto amargo, e um saudosismo meio torto. Expectativas cada vez mais fugidias de. Não há palavras para prosseguir! Labirinto sem fim. Agosto dominador, esse. Melancolicamente passava por mim, e nem sequer me cumprimentava. Ouvi uma porta bater. Fiquei do lado de fora. Vem a chuva agora, tô sem a chave. Deixa molhar, eu e você. Deixa esse agosto terminar em água, como eu, como ele começou. Deixa ele ir, por nós...
...e que venha setembro, com flores, abraços e sorrisos. Com a primavera te chamando pra correr no jardim. Por você ser flor, pra fazer parte dela. Que ele te traga aquele doce sorriso infantil, o suspiro que sai dos lábios, liberto pra ir pra fora. Para outros ouvidos, quem sabe. Que teu corpo seja fonte de amor, que teus lábios se exasperem de sonhos. Que teu pranto seja o acalanto das dores desse agosto irremediável. Esse silêncio febril de agosto quase acaba com as esperanças de qualquer ser vivo, mas tu encontras ainda uma força. Meio bruta, é certo. Mas que agora pode brotar, para todos verem. Os olhos, ah teus olhos, tuas janelas se abram e deixem a luz da primavera entrar. E que cada lágrima derramada em agosto se transforme em chuva de setembro, em chuva que percorre teu corpo e que denuncia meu olhar sobre ti. Que saibas que estás em mim. Que eu seja perdoado, que teu amor me condene. Seria minha melhor sentença.
Que seja doce, para ti.
Para ti, do sempre teu...

sábado, 27 de agosto de 2011

Doce Sal.



Escrevo esta crônica com um sabor amargo na boca, quase insalubre. Podendo cuspir, ou até mesmo engolir a seco este momento, como tantos outros que passaram. Os dentes e a língua travam, e as mãos tremem com as iniquidades que se apresentam a cada passo dado. Fui sendo tragado por uma semana de obstáculos. O cansaço corporal, denunciado em meu rosto, parecia que torcia pra que houvessem mais degraus, mais chão talvez. Eu só me encontrava à noite, sentado na cama com um incenso do lado.
A torneira pingava na mesma velocidade do ponteiro. Parecia querer acompanhar as horas, os passos, o tempo, a mim. Coração bate criminosamente. E num jogo de cinismo, finjo não percebê-lo. Talvez mais por inércia e menos por querer, mesmo. Insiste em pulsar, firme e forte e bombeando e indo comigo e rindo de mim. Menos por história e mais por momento. Dessas horas que fica inscrito na alma que algo morreu, algo não existe mais. No fim das contas, amor-próprio não existe. Amor sempre transcende os limites do si-mesmo. Amor é sempre para-outros. Arranhava meio desibinido, andava em meio à pedras pontudas... Pode ser até o tempo, mas nenhuma base segura se arranha em meio a passos bem dados. Aquelas hesitações permanentes de quem já se cortou muito e agora não pode gritar. Definitivamente? Quero um banho de chuva. Quero tomar, beber todas as minhas lágrimas. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Artista


Artista
Em um canto nobre
Acomodei meus traços.
Que seriam munidos com pincéis,
Feito tela, ou recitais
De menestréis.
Deve ser das formas,
Caladas no branco papel,
Ou da fina arte do corpo
Quando um beijo o invade
E sela o destino.

Suspirava visões de um pertencer mútuo. Beijava-o como fosse o último. Acontecia ali, naquele encontro, um interesse sórdido que aumentava e ganhava proporções inexatas, amorfas, como o estranho pintado que cerrava o apartamento e encaixava o inesperado dentro daquele espaço de dois corpos. Um ambiente pouco lúcido para o partilhar comum de duas almas que se chocam uma a outra como forma de se contextualizar no infindável número de mundos a se formar, e que seriam gestados naquele espaço. A fluidez dos contatos corporais amanhecia descaminhos contínuos nos gestos esboçados. Era como se cada movimento habitasse os recônditos da casa (e dos corpos), formando densas imagens indiferentes ao espaço, mas ensinadas a se entregarem de volta a seus donos, a seus golpes de origem. Cores demais, imagens passivas e corpos ativos, a postos, prontos para ensinar-se na diferença abstinente. Sem festas e cerimônias, rituais habituais. Uma sobriedade inexplicável pendia para a janela, ali do alto. Enquanto dentro da casa, os sinuosos frêmitos decidiam as próximas sensações e se prostravam diante do contato carnal, próximo à divinização das almas presentes e tocadas. Tragavam-se fumaças de híbridos que contornavam cada linha e se despojavam de si mesmos para se entregarem, assim, nus, um ao outro. Desconheciam-se os exageros. Abriam-se os poros de cada um para implementar cores do outro, e se pintavam a seu modo. O encontro dos lábios, o peso dos corpos, a textura dos cabelos, as palavras mais ardentes, sensações intensas de dois corpos juntos. Procurou cada parte daquele corpo arrepiado, por um frêmito que parecia ser magnético, deixou-se ser procurado, fez-se caminho. O desejo selvagem, o ardor dos encontros, de misturar o sangue e o resvalar fechado das feridas. Os gestos e caretas, os impulsos, as posições, as mordidas, os olhares e a ampla comunicação sem palavras. O sonho que não conta passos, os passos que só querem ser levados a um único ponto. O vai e vem conjugado de dois corpos, o desvendar da escultura por meio do tato, como se fosse decorar cada canto, cada traço, cada marca. Anoiteciam dormências latentes e abriam-se duas chamas alquímicas que se transmutavam constantemente um no outro, se fundiam e se tocavam completamente, sem pudor, sem críticas nem timidez.
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