A cidade vendida, veículada na mídia, parece ser uma imagem distante do que se vê por aqui. Antes das oito da manhã, São Paulo fazia 20°, e a população do metrô se empurrava pra entrar. Desci a estação da Consolação desconsolado: uma multidão me engolia pra dentro das linhas férreas. Na estação do Tietê, me perdi. Cheguei no asfalto e fui seguindo as placas em direção ao Anhembi. Parei uma vez ou outra pra me perguntar: estou seguindo as placas, mas me sigo? Comecei a prestar atenção nos meus passos, como eu andava até lá. Apesar da calçada estreita da marginal, o espaço parecia largo. Mudava mais o olhar, do que os passos ou o tráfego do lado. No Parque, a sonolenta massa humana condensava o calor da cidade. O que se vende aqui é muito mais um espaço do que os modos. No fim da tarde, cruzei toda a Avenida Paulista a pé. Cansei o corpo, ansioso. Voltando pro apartamento, desci a rua sem tanta pressa. A cidade vende pressa. Vem depressa.
As palavras são a náusea do vazio. A solidão e a angústia, filhas da mesma substância escura da noite absoluta e impenetrável – esses dois sintomas da doença literária.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
São Paulo IV - 19.09.2012
Nós temos que manter esse dia vivo, tão vivo quanto foi o encontro na estação do metrô. Tão vivo quanto cada letra grafada nos papéis, quanto os chocolates, os passos, as palavras, os perfumes. Voltando pra casa, me surpreendi derramando lágrimas sobre a foto. Algo tão doce, tão forte, tão intenso. Poucas palavras, muitas histórias. Dois ébrios de um afeto finalmente reconhecido. Presença e entrega imediatas. Os labirintos insondáveis dos afetos, perpassados por um olhar sincero, seguro. Nestes labirintos, nunca nos perderemos. Irremediavelmente (odiamos remédios!) atados um ao outro. Trouxe comigo a chuva, tão pedida. As impossibilidades, ou qualquer outra coisa que atropele um caminho, são nosso ponto de partida. Nenhuma câmera, nenhum espelho, nenhum refletor: o melhor lugar habitado por mim é nas retinas daquele par de olhos verdes.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
São Paulo III - Amores e Possíveis.
Há uma cidade entre as pessoas. Veloz e frenética. São Paulo é uma personagem. Eu respiro ofegante, contagiado pela intensidade absoluta que paira no ar. O dia começa cedo, a saudade de muito desatinando no peito e, como o rímel delineia os olhos, começa a delinear meu olhar. Minha insuspeita e profunda presença aqui, nesse 15° andar, meus rastros deixados no pequeno quarto onde estou. Meus passos nos desvãos do apartamento, o encontro com o amor em poucas horas. A necessidade de devorar essa presença incontestável, não-minha mas habitada dentro de cada traço meu. Amor estrangeiro. Desconhecido, sua desfaçatez assombra. Mas me entrego a isso, total e límpido. Apertado entre o peito e os braços, abraçar é angustiar. O vazio de Camille Claudel, escrito na porta da casa, escrito no meu corpo, na minha estante. E quando todas as linhas, do metrô ao corpo, lhe mostram o caminho, só resta a mim andá-lo, caminhante que sou..
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
São Paulo II - Amores Escancarados.
Angustio-me
andando por São Paulo. Como se eu fosse encontrar algo que me esperasse ao
dobrar a próxima esquina. A cidade é habitada por um sentimento inacabado,
disperso por cada centímetro de asfalto. Andando na famosa Avenida Paulista, me
dei conta do sentido que estava tomando, aqui. O olhar vai se movendo por sobre
as coisas, nas pequenas pausas (causas perdidas..) vai entrando em cada poro,
tomando conta da sensação imóvel que me surpreende: os afetos humanos são
provocadores. A urbe toda é uma grande provocação, quase uma afronta. Não há lugar para palavras. Olhares nada
inquisidores, perdidos atrás de frondosos óculos escuros, a escuta limitada à
dois fones de ouvidos interligados pelas mais diversas cores, e uma velocidade
impregnada em cada passo – o medo absoluto impera. Ninguém se encara, nem aos
outros. Passam desapercebidos, receando um encontro total e avassalador que
mudará completamente o rumo do dia, ou quem sabe da vida. Passando na frente do
MASP, uma fila enorme pra entrar. Perguntei-me o que eles veriam em museus.
Apesar da capacidade interventiva trazida pela própria disposição espacial, e
das pinturas e curvas que até a geometria não-euclidiana se espantaria, a
paixão acendida na metrópole não é, nem de longe, pela diversidade humana. É
qualquer coisa entre o possível e o provável, o temor daquilo que pode ser
realizável aqui. Não cabem amores impossíveis, aqui. São Paulo é feita de
amores e possíveis.
domingo, 16 de setembro de 2012
São Paulo I - A Cidade Sitiada.
Pouco sono, pouco cansaço. Num dia, ver o sol se pôr na estrada, chegando na cidade onde nasci. Nas próximas horas, vê o sol nascer acima das nuvens. Recife é uma cidade pra ser vista de cima, de madrugada, iluminada pelas próprias luzes. Mal dormir, ansiedade e amor correndo nas veias: o avião pousa em Guarulhos, estou na primeira cadeira do avião. Fui um dos últimos a entrar na aeronave, e o primeiro a dela sair. Eram 6:34, exatamente. O aeroporto me ofereceu espaço pra um café. Minha mala demorou a aparecer. Mas eu olhava São Paulo de dentro pra fora, como quem descobre um novo mundo. Ou um mundo novo. Caetano está certo: em Sampa, você se sente conectado com o planeta. Singularidades, pseudo-intelectuais, jovens cansados das mesmas caras cheias de maquiagem, cults ou nem tanto, o fato é que é uma cidade sitiada. A teia humana, vista de perto, é uma monstruosidade. Parece não haver espaço pra tanto corpo junto. Eu me assusto fácil com essas coisas. São Paulo consome os sonhos, devora todas as possibilidades. Arte espalhada pela cidade, qualquer canto é alvo fácil de intervenções. Até as pessoas: verdadeiras pinturas transitam entre as ruas, os carros. O tráfego humano parece se igualar ao tráfico de exigências informais que assola a cidade. Observando os tipos humanos daqui, chega-se numa conclusão óbvia: não há um jeito paulista. É um caos. Os mais precipitados poderiam pensar, ao ler tudo isso: 'São Paulo é uma cidade para todos!'. Não, é o contrário: São Paulo é uma cidade para poucos. Eu não estou incluso nestes poucos. Alto aqui do 15° andar, vejo a noite cair. Cair aqui é explodir a concretude: é viver a intensidade e a efervescência dos amores escancarados.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Xadrez.
O sorriso forçosamente pintado em seu rosto
tentava explicar a figura recostada na calçada. O rosto taciturno e indiático e
singularmente distante. Parecia estar estragado, ou coisa do tipo. Vencido,
passado da validade. Estava estranhamente “sujo”, com partes pinceladas por
carvão. No fundo, o branco; na superfície, carvão. O contraste da pintura,
preto e branco, era o que dava vida à figura. Aquela fantasia era tudo o que
tinha. Tinha olhos glaciais.
Era
carnaval. Uma espécie de festa secreta. Gratuita e geral, mas secreta. Naquela
época do ano, era abolida a venda mercenária de fortunas. Todos participavam
automaticamente. Não se admitia a mínima violação da alegria expulsa dos ditos
foliões. Já havia deslembrado qual dos
dias era. Julgava ser a quarta-feira de cinzas, pelo seu estado. A folia rolava
solta lá pelas tantas da manhã. Ressaltava o movimento das pessoas indo e vindo.
Estava fora de sua responsabilidade cívica, assim como todos os outros nas
ruas. Não parecia querer mudar sua posição, ali recostado em algum ponto da
cidade. Esquecido. A festança rolava solta na rua. Ele parecia nem vincular-se
para os acontecimentos. Nada parecia atrapalhar sua visão absorta, se é que
estava vendo alguma coisa. Algo se desatou nos seus olhos fixos e eles se
moveram à vontade nas órbitas: ele não contemplava mais, também não precisava
prestar conta de seus próprios olhares. Podia andar pelas ruas, anonimamente,
enfiado até o pescoço nos seus indumentos, não lhe escaparia. Era um pierrô. Mais um no meio da multidão. O
ar, fantasiado, vestido de monóxido de carbono e poeira e festins e
lança-perfume e reverendando os ditos foliões. Um cheiro de perfume, perdido no
meio da fantasia do ar.
O
sorriso trajado pelo negro não estava desbotado, pelo contrário, parecia ambicionar
saltar de seu rosto. A fantasia era quem ganhava vida no carnaval, assim como
todas as outras. Mas, díspare dos outros, a fantasia era ele. A sua fantasia
tinha vida própria. Ele permutava-se com sua fantasia. Cada retalho fantasioso
era um pedaço dele, e ele era um pedaço da fantasia. Eram um só. Acompanhava
com o olhar os pretextos que via à frente. Tentava buscar um sentido para
aqueles recortes. As extravagâncias reinavam soltas na rua. Era tudo permitido.
Eram outras fantasias que faziam parte da rua, que era só um adereço adicional
da festa. Ele não parecia estar alegre, só o vivo sorriso negro era visto.
Diria ser um sorriso ferino.
Os
sorrisos que provinham das máscaras ao seu redor eram mais exatos do que os asilados
atrás delas. Bastava uma leve distração comum, e ninguém percebia o fato. Os
símbolos têm palavreado próprio e logo se adivinhava o que estava por trás deles.
Ele parecia lembrar e esquecer, num piscar de olhos. Não se comprometia. Soltou
um grande sorriso sarcástico, uma gargalhada. A multidão nem parou para
observar. E ele ria. Cada vez mais fundo olhava para aqueles que iam de
encontro a ele. Nada falava, nem gesticulava. Sua fantasia, e seus olhos,
falavam por ele. Nada disse.
O
pierrot levantou-se. Ficou parado contemplando o horizonte de máscaras que se
estendia à sua frente. Seu olhar frenético parecia percorrer os mais ínfimos
cantos daquele mar de signos. Talvez percebesse, com toda lucidez, a condição
experimental daqueles que ali transitavam. Rumou contra a multidão, dava passos
resumidos, quase calculados. Com as mãos para trás, como que atadas. Com o
sorriso dando cartão de visitas, caminhou. Misturou-se à multidão.
Ao viandar
por entre estranhos, aqueles velhos desconhecidos de longa data, tentou capturar
o que estava divulgando aquele colorido inerente àquelas pessoas. Havia barulho
intenso, típico barulho de quem não tem nada a dizer. Passou o pensamento de
que ele também era alheio às outras pessoas, do mesmo jeito que ele pensava
deles com ele. E sorriu. Talvez interpretassem que era habitual aquele sorriso,
devido à época do ano em que se encontravam. Se mesmo as fantasias nada queriam
dizer realmente sobre quem estava por baixo delas, o que dizer de um sorriso?
sábado, 11 de agosto de 2012
Papel.
Mudam-se poucos hábitos. O passado, passando, e a gente andando como quem não quer nada. Grande parte das promessas são estrangeiras às próprias palavras ousadas que distraidamente repetimos no cotidiano. Muros que denunciam, palavras prostituídas, cerzidas do seu próprio espaço pela propaganda. O terreno baldio das ruas, e o seu impassível e irrevogável caminho. Os cartazes são lamentações. Um pouco mais prolixos, talvez menos chamativos, panfletos ríspidos são agitados nas sombras das árvores, formando um amontoado de papéis arremessados e amassados. Nas esquinas, nas curvas do asfalto, visões empoeiradas restam aos olhos. Um leve respaldo de ar fresco, um mínimo vento, e a poeira se agiganta pelo ar. Aos passos que ainda se aventuram em perpetuar pegadas invisíveis, folhas caídas, correntes de água que arrastam para o leito do esgoto urbano, que dilui à cada centímetro, os sentimentos dispersos à cada pisada. Na memória cruel, o caminho de casa! As casas espiadoras de homens. As idades andam. As cidades param. De tanto papel ambulante, as pessoas se fazem origamis. O suor sacrílego da carne, a percorrer a solidão da roupa. Errante. No longínquo das vicissitudes desse permeável dia, a escrita surpreende os inenarráveis que se amontoam em cada acontecimento. A platéia dos papéis urbanos são as árvores. São elas que se curvam, que se prostram. Papel que nunca germinará, nesta terra infecunda!
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Lanterna.
Espaço, habitação, lugar. Em que cortina se esconder? Chão, labirinto, parede. Fumaça, corredores escuros ou amaldiçoados. Vulcões, formações geológicas, desertos, cadeias montanhosas. Terra, azulejo, poeira. Cimento, talvez. Portas fechadas e abertas. Não deixar sair ou não deixar entrar? Abertura e clareira. O corpo é inóspito. O mundo exorta, regurgita cadáveres putrefatos. Não se comporta, não se suporta! O peso de ter que carregar sua própria história. E o encontro com o semelhante, que atravessa a pele e invade o sangue. O alheio. Que arrebata caudalosamente cada sensação. Portas abertas fecham. Portas fechadas abrem. Saem e entram coisas, um fluxo ativo de afetos que circulam pelo corpo. Há portas que não abrimos sozinhos. A invasão alheia estrangula possibilidades, destroça paredes, deixa um escombro interno. Mas as portas fechadas não se abalam, e deixam algo dentro. Nem que seja o vazio, fatalista como há de ser. As portas fechadas impedem, excluem. Mas salvam. Ser apenas o movimento. Não ser os passos, nem a distânica. Habitar o afeto, morar na clandestinidade de si mesmo. Ser o não-ser: eis a questão.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Pandeiro.
Confesso que sambava embriagado. Confesso que sambei errado. Deveria ter me jogado, na loucura e efervescência daquele dia. Mas é madrugada. E eu lamentando o samba perdido! Perdido não, mal desfrutado talvez. Molhava o copo. Meu lamento, meu samba tem nome e rosto. Meu coração, pandeiro. Quase um samba dobrado. Nas esquinas, em cada canto, as mesas dos meus amigos do peito. Não acredito nas comemorações. Nem nos olhos que buscam as saias, ou as pernas. Talvez acredite nos copos. Meio cheio ou meio vazio? Só se for o samba antigo! Uns choram o perdão, outros festejam o coração. À mesa, alguns copos. Eu sento, a canção eu sinto. E vai passando, embaraçando os cabelos. Alguns corpos se sacodem, tentam se libertar de qualquer coisa que tenha acontecido. E o tempo sambava naquelas pessoas. E a solidão dava o tom maltrapilho daquele dia. Então, me tirou pra dançar. Rasgávamos juntos, cada nota. Ela me encantou. Arrisquei os mais tristes passos, meio que sem jeito. Soprei um sorriso, à meia luz. Súbito, oscilava entre a luz dos olhos e as batidas do pandeiro. Ah! Adorável como acordar depois de um doce sonho. Pedi mais uma dose. Extraviei as culpas, me esbaldei. Perdi o sono, pedi outra dose. Desatei o casaco.
E fui embora, me estranhar com o amor.
domingo, 17 de junho de 2012
Ferido Diário.
Escrevo nessas linhas tortas uns poucos apertos e pontadas no peito. Afogo esses sustos repentinos com Billie Holiday gemendo ao fundo. Algumas lágrimas que se verteram, sobrepujando esse rosto límpido, enrustecido pela idade. E essa falsa força que exponho pro mundo, e que espero tanto que alguém me ponha no colo, me afague os cabelos e nada me pergunte! Minhas mãos se concheiam para esconder esse rosto, árduo campo de feições de expressão. Eu delinearia minha face com todos os cosméticos possíveis, mas em vão seria, posto que meus traços se deterioram a cada dia. Uma ruga nova, uma descoberta da face. Alguns cigarros, esse insalubre gosto na boca. O canto da boca escarnecido, meu falso sorriso que há tempos não o vejo. Meu perfume forte, pra dar a impressão de jovialidade, talvez; vestido longo, batom rubro e um par de brincos. Em casa, madrugada. As luzes acesas, todas; conversa animada. A televisão ligada me distrai, eu tomo o tempo e gasto minha solidão. À noitinha, só à noitinha quando me bate a saudade, choro. À vontade, sozinha.
Mas certamente que há algo de idôneo nessa solidão. Diferente das idiossincrasias a que tenho visto no mundo lá de fora, eu me lanço sozinha nesse apartamento gasto. A visão daqui, dá pra ver a praça. Os pombos dançam na solidão dos caminhantes, as migalhas de comida e as migalhas de passos que vem e vão. Eu só observo, os meus pombos já se tornaram corvos, e em pouco tempo abutres testarão minha carne, vou saber se sou digna ainda de sair lá fora. Eu ainda descubro desejos escondidos entre minhas pernas. Entre as pernas, fico catando, obsessivamente feito um rato atrás da presa, esse desejo que me assola e que me contorce toda quando chega. Essas coisas surgem assim de repente, e explodem sutis, feito bolha de sabão. Eu, nua, com a água da banheira morna, espuma e espumante em mãos. Eu, crua e reluzente, feito espada ao ser desembainhada na hora do ataque final. Reparo nessas minhas mãos, ah! essas minhas mãos vazias! Um ou outro anel, aqui e ali. Fico encabulada com esses esmaltes que uso e não mostro pra ninguém.
Tenho um receio enorme de saber que já não compreendo nada ou de que meu ouvido só aceita certas coisas. Aceitei fugir do palco e me resguardar entre quatro paredes, assim, sombria e doce feito maçã-do-amor. Ainda espero acontecer algo, mas sei que é mera lógica, mero temor de não mais responder aos outros. Espero por ser uma bela cortesã filha-da-puta, burguesa, e ainda por cima decadente. Sem chance nenhuma de ir atrás de qualquer pose sorridente que me rodeie. Enchi-me desses sorrisos de retrato de família pregada em todas as paredes; furtei-me de doces e rasgados beijos dados no calor de várias doses. Agora sou só um consolo pra final de semana. E passar minha vida a limpo dessa forma jamais contada, nem contida; apenas esfregada em tantos corpos, afogada entre tantas salivas e abismada entre tantos olhares que percorreram este corpo.
“Com as unhas gastas, vou arranhando a madeira da mesa, com um copo de vinho do lado, e ele na minha frente, me olhando inquisitorialmente. Ah, beba uma taça comigo, bata os dedos na mesa. Há uma cama a nossa espera. Esqueça esse convencional anel e se afogue comigo, aqui, agora, assim. Nesse apartamento, vista pra frente, e nossas roupas comuns iluminadas pela mesma luz. Bem que poderíamos abusar das estrelas e descobrir constelações inteiras, com lápis e papel. Olhando apenas para o céu. Nessas pequenas doses de amor de aluguel. Este sonho precipitado e rasgado que eu tive. Mas não se rasgam sonhos sem o gosto do fel.”
Essa pequena nostalgia, lembrada com extrema sensibilidade, me invadiu. Virou epifania. Traguei o cigarro. Um gosto fúnebre de fumaça já arquivada na garganta subiu, de repente. Um óbvio me soou tão gasto, já com palavras não me sucinto. Talvez, absinto. Com um arrepio indeciso entre escapar logo e eu prendendo-o. Sempre tive este jeito meio ferino de ambientar meus embates. Cigarro, bebida, homens rombudos me cercando. Nunca tive saco pra festas sociais. Um calmante, um excitante, whisky, uma sala, velas. Isso basta. Meio árida essa convicção de que festa só é bom com muita gente, com desconhecidos, com muitas mãos, outros abraços e alguns beijos absorventes de uma única noite. Saudosista que sou, gravo olhares, relances e lances. Movimentações dúbias e iniquidades as mais diversas.
Num desgosto quase sagrado, voluntário, lúcido, quis tirar minha vida. Talvez para certificar-me que ela foi bonita, complexa, decisiva, inóspita, melancólica, depravada o bastante para não ser esquecida, pra ficar na história. História! Mas que história? Persuadida, convencida de que iria fortalecer alguma coisa que não sabia direito, tentei um coquetel. Foi a primeira, e a única (diga-se de passagem) vez que usei de substâncias psicoativas para alguma coisa. Isso por vontade própria. Nunca sei se puseram algum ansiolítico, Valium, ou outra substância em minhas bebidas. Sei, apenas, que foi uma tentativa frustrada, é óbvio. As olheiras me afundavam, meus cartões venciam rapidamente, gastei tudo em fantasias, era tudo o que eu queria. Era uma adepta, fervorosa, da liberdade de escolha. Escolha da embalagem. Traduza assim, essa minha liberdade: álcool e homens, toda hora. E a ressaca vinha, moralmente feito mãe de prostituta quando esta volta à casa. Não me poupava em restrições, em tentativas desiludidas de amparar-me definitivamente em outras pessoas, em engajamentos ridículos em temas sociopolíticos de primeira grandeza, todos esses mantras que permeiam os noticiários modernos. Mas nasci para ser um fim de semana. Mais especificamente para ser um sábado – e comigo sempre aquela expectativa de adoçar o domingo. Engolia o próprio choro, numa vontade louca e desesperada de gritar e pedir ajuda, porque não me aguentava mais. Na verdade, o grito era por não haver mais com o que me sustentar. E foram tantos coquetéis, e outros montes depois deles!
A denúncia é sempre deste secreto-palpitante coração que carrego dentro do peito esquerdo. E essa denúncia, meio pálida, quando se agita ela se mostra como uma falta. Uma falta, não da abundância da qual me permiti este tempo, mas uma verdadeira carência. Tal como Claudel, essa ausência me atormenta. Foram corpos demais, sexo demais, beijos demais, êxtase profundo e rebelde que me rasgou – mas só em finais de semana, só em sábados. Véu de lágrimas, com esses brilhos falsos todos saltando os olhos. Borrar a maquiagem. Encharcar a alma de lama.
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