Agora. Nem a marca de batom na xícara. Nem o copo meio álcool, meio água, meio gelo que já derreteu. Surpreende-me a caleidoscópica ironia nos entrelaçamentos da vida. Vultos e voltas, carinhos crucificados - a coroa de espinhos no pé. Ando tonto. Equilibro nem minhas vontades. Distorcidas, extremas, entranhadas. Meu corpo é vontade. Meus prazeres não são sentidos por mim. Desejo único de ser vontade de outro, desapegar da minha pele para vestir tristonhamente os afagos e carícias eminentes. Deitado no seio, meu leito, ufanar o peito na entrega viril de mim mesmo. Meus nascimentos vomitados, entre a saliva levada de uma língua à outra. Ao avesso, sou o verso desfeito de verdade. Porque a verdade sou eu, o egoísmo que encontra seu batismo na consumação, nas mordidas. Persigo o mesmo poema, sem viver a mesma prosa - meu prosaísmo rompido. Acuso-me dos crimes passionais: dos ódios originários às refinações dos orgasmos. Volume reinventado para ser explodido em olhares, medo refeito para ser enfrentado pelos dicionários. Sou solitariamente equivocado por não dever nada a ninguém. Nem a mim mesmo, que não existo. Nas linhas matizadas, ando na corda bamba do hábito. Nas músicas, sou a guitarra que solta um solo longo, dolorido e o grito que arrepia - a voz em brasa. Inflamo, inflamo ao ressoar funebremente as últimas notas do solo. Ali, naquela agulha rompendo a pele, naquela tragada, na fumaça, no cinzeiro: sou a infusão daquilo que não dorme. O estupor da pronúncia, o desespero de ser minha própria sílaba.
As palavras são a náusea do vazio. A solidão e a angústia, filhas da mesma substância escura da noite absoluta e impenetrável – esses dois sintomas da doença literária.
sábado, 1 de junho de 2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
domingo, 21 de abril de 2013
Um corpo tão pequeno, para tantos epitáfios.
Até pouco tempo atrás, segurar a cabeça era um gesto de descanso. Hoje, o peso das lágrimas não soltas liquefaz até mesmo os sorrisos. Entre um gemido e uma gaita, um ou outro solo que desorganiza. O choro é infrutífero. Por não bater no concreto, tomei a liberdade de me refugiar na ousadia, arbitrando a afetividade. A erosão - apenas consigo chegar ao concreto depois de destruí-lo - (me) corrói. As palavras foram confundidas com meu próprio rosto. Talhei, esculpi.
Nos confins dos dias, os cabelos derramados sobre o chão contornam os pés descalços. Um trago de cigarro, um pigarro envelhecido - escrever a cinza deitada no cinzeiro. As ausências instantâneas do presente - a nostalgia do próximo instante. Todo cotidiano é tardio - um epitáfio suspirado. O tempo inopinado obriga, transforma os pesadelos em tela, persiste em consagrar-se como fôlego da vida. Nos infernos do amor, atirei minha coragem num instante de isenção, quase impunidade - os domingos inconsequentes e confortáveis.
Como inconfidente da liberdade, lancei meus próprios desejos num túmulo que seria meu - como desertor do concreto, desejar seria aceitar a sombra vagueante que escapou deste túmulo. Apodrecidos, putrefatos, são consumidos pelos vermes. Ao primeiro deles que me tocou, sou indecididamente grato: é o único que devorou este corpo de tantos epitáfios e se embriagou das lágrimas ausenciadas. Agora, sou este verme, sou quem me come, me devora. Com toda a liberdade devorada e letal. Voltei à virgindade do grito.
sábado, 20 de abril de 2013
Emotion sickness.
e decepções
sem rancor
nem amor.
Rasgo apenas para
não acumular papel
na estante onde
guardei todas as cicatrizes.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Narcótico.
Desvio teu cigarro
no desvario
das minhas bebidas
quentes, escorregadias.
Nos goles secos de
uísque, vou
deixando as marcas
do batom
que negaste em tua boca.
Numa tragada forte,
fulminaste minha chama.
domingo, 24 de março de 2013
Ex materiae.
Por ímpeto, ou mesmo vaidade ingênua, sempre tomei todas as minhas decisões em tons apocalípticos: atos que são irrevogáveis, e que acometem todo o peso cruel sobre o meu corpo. Como andasse atrás deste destino de linhas apagadas, tateio desesperado a superfície escorregadia de algo sem nome - algo que só se mostra na sua tangibilidade. As mãos espalmadas, doloridas, sem o refúgio de nenhum bolso ou de uma outra mão que a enlace. Os gestos calcinados na pele, em alto relevo quando ventilados pelo consolo da familiaridade - pelo menos, ainda posso sentir os pequenos milagres num contato atonal.
Ainda tímido, involuntariamente arrisco um olhar. Sinto perfurar as veias esse algo tangível e impronunciável - uma espécie de comunicação abrupta e suportável apenas numa recessão distraída, o tempo certo da agulha arder a pele. Ponto: me permitir adivinhar não seria trair o destino, ou essa coisa existente apenas reclamando espaço. Sinto-me, assim, tão pobre: não tenho o que dar, e por isso me dou.
Não chega ao extremo da renúncia - acabo me arvorando (enraizando) nessa coisa apenas tangível. No absurdo de suportar heroicamente o silêncio, acalanto as palavras sem a delicadeza do veludo, mas com a violência da traição. A verossimilhança é impossível - sua possibilidade já nasce suicidada. E no meio da extensão desta coisa tangível, no deslize das palavras, sibila junto toda a associação. O que corrói, mesmo, são todos os surdos movimentos no espaço do não-visto. Entre sufocar com a presença e o despedaçar-se lento de um futuro roubado, afogar na saliva e na lágrima alheia é a salvação. De tangível, então, só a fumaça saída da boca desencostada dos outros lábios.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Autoconfissão.
Não
pude quanto o indelével romance de minha vida. Tremo quando penso que forjei um
personagem inexistente, atuando apenas nas páginas soltas de qualquer coisa
escrita. Mudou o foco das minhas intelecções, estas tão impugnadas quanto este
afeto embotado que carrego dentro do peito. O que me dizem as pessoas, se nada
posso ouvir com este ouvido surdo para fora? Eu nada ouço, senão meu coração. E
mesmo este mantém um ritmo constante, suportável apenas dentro desta matéria
inexperiente na qual está encarcerado. Pois quando posto pra fora, embora nunca
seja moldável em condição extrínseca nenhuma, este se confunde tragicamente com
as sensações experimentadas por sob a pele. As cavidades que o compõem, sejam
átrios ou ventrículos, são tão internas que são já da carne, não mais dele
mesmo. Aliás, é precisamente isto que tomo: meu coração não pertence mais ao
meu organismo vivo. Não é sua ideia biológica que gravita para sempre em meu
sangue e células. Não vejo mais a separação metafísica entre corpo-máquina e
afeto-sensibilidade. Minha anatomia autófaga – sou todo coração.
Para
cada parte menosprezada, ou que outrora não lhe havia sido outorgada o crivo de
pertencer ao corpo, desce uma lágrima que escorre dos olhos – e esta logo vai
ao peito, somando aos pelos um novo afeto. Minhas veias atrofiaram, embora o
sangue que me corre é mais denso que qualquer licor, e mais extenso que
qualquer água. Explodiram em sua passagem, não são mais limite ou condução de
irrigação: meu sangue agora flui veementemente por todo o corpo. Encharco minha
pele à menor pressão. E por mais que as coisas se atrofiem a ponto de me sentir
claustrofóbico dentro de mim, a autofagia deste processo me deglute pouco a
pouco. Alimento-me de mim mesmo, num egoísmo cristão de tão solitário.
Não
tenho o mesmo sorriso fácil e jocoso esculpido nas estátuas dos santos. Meus
exageros saltam sobre as sobrancelhas, enrugam a testa como se acrescentassem
um mínimo de pele em mim. Mas o imperturbável limite, mesmo no meu exaspero
torrencial em escritos e leituras, se deixa impassível. O silêncio onde Deus
teve de vomitar o mundo para não se nausear consigo mesmo – esse silêncio
obscuro entre as batidas do coração. Indecifrável contingência dos traços
desenhados pelas vassouras das bruxas que cruzam os céus. E o céu da boca, com
as estrelas e estalos dos beijos roubados, esses pequenos artífices de afetos –
esse que os ruídos do coração se fazem volúveis para serem ouvidos.
Não degusto nem
minhas pausas. Até os predicados que uso para me compor, ou para deitar estas
palavras pretensiosas, são todos eles sintaticamente (nunca simpaticamente) compostos
por dúvidas. Nem os entremeios do silêncio, onde tropeço desastrosamente nos
meus dias insones inacabados e inalteradamente inesperados. Estes são
atenciosamente arredios, especialmente lentos enquanto embriago soberbamente os
papéis. As únicas gentilezas, por assim dizer, a que me dedico são os cafés –
descafeinados dos prazeres todos.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Do amor em tempos de sombra.
Acordei
de sobressalto, assustado. Ameaçado pela silhueta que me encarava com um doce
sorriso e um olhar inquisidor que conheço bem. Aquela sombra fantasmática já me
acompanha há um bom tempo, hospeda em minhas lembranças, memórias e ruínas. Ela
não se cansa de estar aqui. Meu medo insano me surpreende. Anseio pela sua
partida, sei que o tempo não vai apaga-la. Ela se desvanece aos poucos,
evanesce depois sua face que tanto me faz ver. Em seu domínio, minha aflição
faz morada.
O
vão da tua ausência que me falta todos os dias deixa continuamente perdido de
mim, mergulho na virgindade do invisível. Afogo-me diariamente nas tintas das
canetas. E tudo o que escrevo é apenas enfeite, talvez do meu próprio caixão.
Borro, risco, rasgo, pinto, mancho, sujo. Meu interminável contorno. Não, sem
máculas ou glórias: sou cúmplice dos meus fracassos. Tão mais cúmplice deles do
que das minhas parcas vitórias, se é que existem. Os ruídos da existência,
ausentes dos meus contornos e inacabados pela beligerância das formas gestadas,
apanham minha vontade de existir. Faria-me perfeitamente em cada linha deitada
sobre o papel. Acabaria fazendo dos meus personagens minha própria chacina.
A
sombra, o fantasma – meu grande amor tombado. O nobre passado por onde escorre
essa saudade infinita – a sombra habita meu presente, eu ainda sou uma hipótese
daquele passado não tão longínquo. Sou o lastro das fraquezas alheias. Meu amar
é um bucólico conjugar de verbos distorcidos, carcomidos pelas traças da
eternidade. Devorar, habitar, ser, entregar(-se), alterar(-se). Meus prantos
tumultuados, tão desafinados quanto as cordas do violão velho que guardo no
quarto, tão desvairados e estridentes e desavisados. Inoportunos. Lavrando meu
corpo e minha posterior carência, peco pela omissão tardia dos afetos que tentaram
se sobressair e sobrecarregar os traços que componho. Foliar a perda inebria e
embaça o choro.
Desabrigo
embaraços, desenlaço dedos e mãos, distraio minhas verdades e traio subitamente
os perdões concedidos na sonolência das paixões. Abro o velho baú, empoeirado
pelo esquecimento. Inventei poeiras para encobri-lo. Decompus minhas distâncias
em nome da sombra, sempre feitas horizontes aonde nunca cheguei. Tropecei
agonizante nos espinhos da coroa de um cristo caído, lacerado pelo egoísmo
humanamente cultivado. Minha gólgota é meu próprio corpo: crucificado pelo meu amor
desumano. Deus-humano. Embriagado pelo sangue que escorre e deságua nas terras
por onde piso, apesar de rasgar minhas roupas, vou abotoando meus quereres.
Costurando com os espinhos a solidão, as cicatrizes arrogantes desabrocham como
girassóis.
Amanhado
nas mãos, meus fardos em pó, prontos para serem feitos maquiagem em meu rosto. Falta
tato para a delicadeza. Essa estranha biografia dos minutos, a qual tenho me
rendido abertamente – eu, dramático crônico – indecentemente abusa das rugas da
minha pele. Qual será meu próximo endereço? Meu caixão desbotado, desenfeitado?
Não me deram o endereço, apenas me deixaram com esse interesse talhado nos
desvãos da pele. As esquinas da minha boca padecem, sobrepujadas forçadamente
por sorrisos que nunca dei. Nem tão cego nem tão santo: a face da sombra, bela,
esconde a penumbra original.
As
solas dos meus pés não mais aguentam. Os espinhos já se tornaram parte da
carne, parte do corpo. Nos brios da dor e da insensatez, atiro-me
depersonalizando os rostos que carrego. As quinas do cotidiano, os rarefeitos e
fortuitos encontros celebrados na loucura do dia – tudo tão impublicável quanto
as mais remontas memórias de cada ser. O cansaço trabalha incansável e
inalcançável na pele das pálpebras. Ele adormece uma parte da saudade.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
De tudo, ao meu amor serei atento.
O amor varou meu corpo. Inflamou minha carne, queimou minha
língua sem esperar o café. Borrou o guardanapo, apagou o nome escrito à lápis.
Escaravelho, corroeu minha carne, passeou pelo corpo como fosse ele quem
habitasse, não mais eu. O amor veio e varou o tempo.
O amor varou o tempo. Fez-me esperar em horas compridas
para desfrutar algo que se dilui nos lábios em questão de segundos. Varreu todo
o cotidiano, limpou as gavetas e - como grande físico - deixou escapar meu
endereço. Comeu minhas fotografias, traça delirante. Mandou lembranças da minha
certidão de nascimento. Não deixou nem a memória dos meus aniversários.
Até as receitas médicas levou. Dopou-se dramaticamente,
devorou as bulas. Foi mais longe: teve sua overdose com meus romances. Até as
minhas cartas, do baralho àquelas que ficaram rabiscadas atrás do diário, sua
fome consumiu. Roeu a numeração da página dos meus livros.
O amor deflorou meus romances. Ele, sempre escondido, filho
bastardo.
O amor fez de mim um suicida sem bilhete.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Os analgésicos da dor alheia.
Entre o papel, a pasta de escritos e o
lápis um pouco mais escuro (visto de longe, poderia ser confundido com um lápis
de olho), alguns comprimidos espalhados. Anti-depressivos de uma existência
informal, escondida entre os borrões no olho e na folha. O abandono dos traços,
incisivos sobre as olheiras e tão fortes que deixavam o alto relevo no verso da
folha – e nos reversos de quem escreve. Os clichês das tristezas e das faltas
nunca deram conta, não sentia alívio nem com o sono pesado trazido pelos
remédios. A serenidade disposta na sonolência de uma paixão que funebremente
atarantava os lençóis do quarto, descompassava as músicas infinitas escolhidas
– esses caprichos insólitos que a solidão vai entregando de bandeja. No
inventário que fizera para si, nem as piadas ruins se salvavam. Bastavam aos
dias serem toda essa fortuna de opióides.
O cansaço era a única coisa que,
repetidamente, lhe fazia uma visita. Os parágrafos escritos, não acabados, as
palavras não terminadas, as cartas não enviadas, o que mais havia para se
fazer? Um olhar mais detido, e via-se nitidamente a pontuação fugir dos
escritos, atravessar as possibilidades e também eclipsar as próprias roupas.
Era a ressaca da dor. As reticências já não são mais hábito. As vírgulas não
pausam nem separam, os dois pontos não anunciam. A escrita virara pintura. O
lápis corria, desenhava o corpo em tatuagens descobertas sob as etiquetas. Fez
dos dias-pílula um clássico da sua própria literatura.
Mas vaiava a própria insipidez. Ria-se
desmesuradamente da própria desgraça: seu sorriso fingido de alegria, tingido
pelo café e pelo cigarro no fim. Sua voz ressequida ressoava uniforme e seu
púbere olhar de languidez embaçava a tez do mundo velho que ora ficava
desarrumado. Chacinava o finito, deflorava o tempo. Não interrompia as
inegáveis intersecções das mudanças de clima, de mês – os dias-pílula ainda
surtiam o mesmo efeito. As horas não eram mais intervalos. Nem mesmo um trailer
expectante do que poderia vir nas próximas.
Os analgésicos para a poesia mal
acabada. Os olhos oblíquos que dissimulam notadamente, ou que acentuam os
traços de Capitu – desde que isso foi escrito, procura-se onde pousaram, desta
vez, estes traços. Os novos olhares, ou os sorrisos nervosos que ora explodiam
em sua face langorosa. Padecia da insuficiência da solidão. Desavisava os
lábios. Eram tapas consecutivas, para fazer entrar os remédios que entorpeciam
o corpo e livravam da vertigem da liberdade. Dissolvidos no próprio sono, na
sofreguidão dos dias maleáveis e intransigentemente instáveis, os comprimidos
sufocavam a dor ainda mais para dentro de si. Conservava, úmida e avaramente,
as palavras escritas entre uma dose e outra, entre um remédio e outro –
guardava insidiosamente, na suspeita de alguém agarrar-se aquela dor. Egoísmo,
sofrer a sós.
Os analgésicos, de tão arredios e
cotidianos, faziam agora parte da dor diária. Não serviam mais para debelar
aquilo que, rebeldemente, insistia no lastro das paredes do quarto. Tornaram-se
tão somente um motivo – embora já não mais lembrasse o porque de estar se
dopando constantemente. A cada comprimido engolido, uma dose de bebida forte
fazia crer. Sobrava, apenas, a dor por si. Escapava a cada tentativa, e
escrevia como que num surto. A dor oprime, e se oprime a ela quando não se
deixa ir.
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