- Um a um. Lentamente. Asfixia, veneno. Em silêncio. Sem explosões. Sem palavras. Comprometido. Até o fim. Ante a mim. Com fervor. Sem amor, só a loucura. Suicídio compulsório. Mais de um. Menos que um livro. Mais que uma música. Uma camisa. Um cabelo. Um cabelo sem voz. Uma barba. Uma boca costurada na língua. Tudo. Enquanto nada. A possibilidade do grito. Sem espírito. A alma no ombro. O céu nos olhos. O inferno, os outros. São. As sobras da sombra. As sobras dão sombra. As sobras, minhas. Eu, também.
As palavras são a náusea do vazio. A solidão e a angústia, filhas da mesma substância escura da noite absoluta e impenetrável – esses dois sintomas da doença literária.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Zelo.
Arrasto meus desconfortos para o transe do silêncio. Meu mundo flutua no cotidiano.
Resgato as aproximações desistindo de conviver comigo mesmo. Escutem. Escutem meus lábios que se abrem apenas para mordidas. Ouçam minhas lágrimas como ouvem a chuva batendo na janela.
Meus murmúrios secos dentro da presença inchada. Porque toda permissão é incomunicável. Quero viver os livros que não escrevi, para toda a poesia que já vivi.
Minha vida cuidada. Minha vida a cuidar. Saudade é não conseguir mudar nada. Clichês cuspidos na calçada. Uma letra do Robert Smith na voz de Johnny Cash. Roupas dispensáveis ao pé da cama. Os sonhos lúcidos no travesseiro. Os outros ejaculados num poema. O corpo avarandado.
O cigarro nunca tragado, ridicularizado. O coração unânime. A desimportância desafiando. A bagunça aguentando. A segurança claustrofóbica. O riso em banho-maria.
O olhar em vanguarda. Um porre cruel. A permanência da vontade. A insistência da memória. Confissão ignorada. A sinceridade comovida. A surpresa suspensa.
A dor suja, incapaz de tirar uma foto.
O hoje lento.
A alegria tentada.
domingo, 22 de setembro de 2013
E é sobre o teu poema imoral.
Você arruinou cada camada de linha tênue do meu auto controle e degolou toda a minha imbecilidade sem ter nenhuma esperança de receber algum indício de gratidão da minha parte. E agora o que te dizer além de que conseguiu penetrar na minha corrente sanguínea, fazendo assim, agora, parte de mim? O que você é? Alguma espécie de neurologista filho da puta? Se é que isso faz algum sentido. Mas não importa. Sobre as minhas vísceras, por de traz das minhas córneas e dentro de mim, a textura do teu toque e a pressão do teu beijo se harmonizam com a falta de amor que meu corpo gélido esteva acomodado a receber. E tu chegara assim, com esses pelos indisciplinados no rosto, e o cabelo perfumado embrenhado com o cheiro da tua nuca, disposto a fazer de mim um poema fora do ritmo, com versos depravados, incompreensíveis pela falta de vírgulas e me fizestes ser mais uma vez, feliz, por decidir não colocar um ponto final.
Ao avesso, sou de novo teu verso. Uma versão mal acabada daquela música que eu não lembro mais. Fizeste do meu cabelo uma tirolesa pras tuas palavras, que passeiam em mim tão fáceis que me arrepio. Te ventilo com meus sussurros. Tu me amordaças com a boca, eu tão pálida me ruborizo. A harmonia visceral que me toma e te queima – as brasas na língua – é uma peça esquecida e soturna, quem sabe composta pelo Fantasma da ópera. Nossos gritos são ritos, chamados ancestrais do amor que nos condenava canibais desde sempre. Tu te despes, eu desperta me disponho. A tua falta de vírgulas, o meu excessivo incômodo por pontos finais – tudo nos levou à essa informe pontuação, sem sentido, escrita à sangue na talha do corpo. Desatinamos a ser a linguagem bruta das línguas mortas.
Se me matas sempre que me faz correr um risco de ter um derrame quando me olhas; se estou perdida nessa multidão, e se vem tu e me enxergas; E eu aceito me despir pra você... Vai ver que o avesso desse poema imoral, é mesmo o nosso lado certo.
(Ellen Gabriele/ Matheus Rocha)
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Passagem concretista.
E eu me pergunto
até quando
devoro,
até quando
vomito,
até quando
até quando.
Até quando
me devoro,
vomito.
Até quando
me pergunto,
vomito.
Até quando
vomito,
me devoro.
Até quando
vomito,
me pergunto.
Até quando?
E depois
expulso.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Outros Mofos.
Caio.
Tô te escrevendo na madrugada quente,
num apartamento que não é meu. Não sei como começar, na verdade. Uma citação
tua, ou da Clarice. Ou outra assim. Não sei. Lá se vão – quantos, mesmo? –
dezessete anos desde que tu deixou tuas coisas do mesmo jeito, sem mudar nada
de lugar. Eu era ainda bebê, velho. E senti tua urgência.
Aqui tá quente. Não me sinto tão
aquecido. Mas tá quente. Tenho essa semana longe de casa, vestindo preto o dia
todo – já me acostumei. Um supermercado aberto o dia in-tei-ro aqui na frente,
imagina? Ah, mas falta dinheiro. No player, a voz do Cícero embalando meu
cansaço. Não tenho dormido bem. E não consigo deixar de te ver. O tempo todo,
profundamente e misticamente no meu dia. Não é que eu queira deixar, ou que
escrevo pra te exorcizar. É força e carinho. Mas é difícil me dar com a
impossibilidade ontológica de não te ter aqui. Assusta, cara. E tu não tem
ideia do quanto.
Sim, sou um cara que permanece na
hesitação do corpo. É quase imperecível, você sabe. Fico me batendo no
apartamento, a uma e meia da madrugada. Soa inconveniente, mas não. Sabe aquela
desintegração, que atravessa a noite, vara a madrugada, esburaca o dia, enovela
a tarde? A sensação profetizada, sempre: aquele medo de rejeição. O medo amputado
da própria sobrevivência. Então. Fico aqui olhando pra ela, projetando minhas
possibilidades carcomidas desde sempre. Tenho pressa, Caio. Não sou impaciente.
Mas tenho pressa.
Sou tão fresco e neurótico quanto você. Coisa
de escritor, talvez. Eu, pelo menos, me penso escritor. Mas tô muito longe. Vivo
um melodrama cotidiano desfiado nas palavras. Vez-em-quando apelo para a
astrologia – o ‘apelo’ não foi agressivo, por favor -, tentando desenhar no
mapa essas minhas disritmias. Demorei pra entender que eu sou também o que
escrevo, e não só. Me exilei em outra cidade – uma semana só, ainda não sou tão
grave – pra tentar alguma coisa. Não me pergunte o que, eu não sei. Mas me vi
dentro de um segredo nem tão secreto assim. Mas permanecerá silenciado, por
enquanto.
Queria morar no Passo de Guanxuma. Não,
não um personagem seu – por mais requintado que possa parecer. Muito perigoso,
talvez. Tenho tanta coisa pra escrever, sofregamente pronto dentro de mim. Um
livro de contos, o primeiro. Sem nome, ainda. É um estado de nuvem. Tudo
nebuloso, lamacento. Queria um cigarro. Queria não: quero.
Pausa. A madrugada varada.
Fico olhando pra minha estante – teus livros
todos emprestados. Não sei se voltarei a vê-los. Sou inábil para dizer não. Mas também não me frustro assim. Nem me amargo
tanto.
Mas olha, hoje é seu aniversário. Não vou
sair escrevendo aquelas baboseiras tradicionais – você deve estar cansado de
ouvir isso. E eu tô cansado de dizer, também. Fico olhando pra minha pedra
esotérica de touro, um quartzo rosa que tenho há uns quatro anos – essas coisas
me lembram de ti.
Vim me confessar, também. Eu sei que
você tá longe daqueles monges – um obsceno senhor C, talvez. Acho que tô no
limiar, no limite branco, Caio. Caio. Ali naquele estado de torpor-amor – os olhos
brilhando. Purpurina sólida. Ah, isso: te desejo muito líquido e purpurina,
querido. Sem inventários, mas sempre o irremediável. Ir-remediável – faz uma
tremenda diferença. Desequilibra a calma, sabe?
Acabei de ver a chuva mudar e direção. Um
balé clássico, seduzido pela Ana Botafogo e as notas saídas na voz da Amy
Winehouse. Acho que você gostaria dela – porra louca, uma literal casa de
vinhos mesmo!
Li tuas cartas. Gostaria de receber uma.
Mas te mando essa. Publicada em qualquer canto, pregada na parede feito anúncio
de venda talvez. Leio teus livros – tenho um conto escrito pra você. Ainda quero
aprender a tocar piano. Tocar uma peça do Brahms, medonha e melancólica. Um copo
de vinho – talvez vodca – em cima do piano. Cafona. Fico catando as dores pra
ver se sai algum texto. Na frente do computador, em alguma rede social e quase
sempre ouvindo alguma coisa.
Talvez se você estivesse aqui, doesse
menos. Talvez não. Ou talvez nada mudasse. Mas sinto que seríamos irmãos,
primos, cunhados, amantes, pessoas que se traduzem aos amassos quando bebem
demais. Desculpa, sou mesmo assim confuso. E às vezes quero me aproximar de
você da única forma que sei: escrevendo. Sou taurino com ascendente em câncer –
aquela sensibilidade nunca pós e sempre pré tudo. Com marte em leão e plutão em
escorpião.
Mas também somos muito diferentes. Te escrevo
também por isso: pra cuidar de mim, e de ti. Por esse meu querer violento e
exacerbado. Por essa tua compreensão encantada e desoladora. Por tudo. Por falta.
Por amor. Por você.
Um abraço, com carinho e cuidado. Onde quer
que estejas.
Com saudade e o amor de sempre – não é?
E um beijo, Caio.
Matheus.
sábado, 7 de setembro de 2013
Na espuma.
em goles secos.
Os corações na sargeta,
pisados, ancorados
no destino dos passos
errados, rápidos,
ríspidos. Amor é uma
palavra pequena,
cabe em qualquer boca.
Cabe no beijo roubado,
sempre na ponta
da língua molhada.
Escapulo no arco
da vida, na flecha
do dia apontada
pelo cupido. A velha vida
adiada fica
mais próxima, a vida
antiga
agita
e grita
na mesa.
Eu torno mais um
copo que
desce em goles secos.
Não decido
à última hora.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Os Dragões conhecem o paraíso.
Inaiza.
Acho que você gostava de me ver pintado de palhaço. Meus olhos inchados de lágrimas que você me mandou não soltar. E o sorriso pintado, vermelho sangue. Só daquela vez me vi assim, dentro do meu próprio horror. Chamando atenção pela cor, eu sempre invisível pra mim mesmo. Mas olha, guria, só você.
Te escrevo por entender. Não que eu me entenda, ou que você me entenda, ou que me faça entender por escrito. Mas por entender, tão somente. E a poesia disfarça comigo. Me vi com o corpo feito garganta, pra ser voz. A pele pedindo libertação de mim, livre da total dependência da confissão em primeira pessoa. No silêncio, sem o suicídio da palavra e na presença de um fôlego manso, vi teus dragões - tão coloridos e teus. Eu, sisudo, ressentido pra sempre por ter nascido - esse era um alvo certo seu, quando brigava comigo -, desaprendi a sorri com os dentes. Sorrio com os lábios, tão somente. Ou com os olhos.
Te escrevo num instante. Involuntário. Escrevo lembrando dos teus livros de auto-ajuda, tua cara de segunda-feira - é muita ironia se dar bom-dia numa segunda -, das nossas ressacas de café e gargalhadas. Ficava besta te vendo trans-formar essas frases de altar-de-bar em pequenos post-its diários, quase pílulas de sanidade. Me transtornava com teu sentido sagrado introvertido e profundo. Era a partir dele que tu batia de frente com meu saudosismo, meu orgulho - se tu não quebrar essa redoma, menino, eu mesma quebro. Verdade espantada e espantosa: eis que sinto que.
Te escrevo também o que pensei e não escrevi. No escândalo do teu sotaque arrastado, cantando as mais altas dores nas madrugadas. Até os desvios em vão - desvãos. Puro estado clariceano, com flores da Cecília que tu me deste - teu último presente, todo grafado. Ganhaste meu presente no meu aniversário. E sabe: não tenho conseguido viver um dia por vez, nem mesmo um por semana. Permaneço naquela fatalidade inócua que me conheceu. Quero dizer: sem descrever espelhos.
Te escrevo insistente. A lua cheia é uma insônia. Entorpece como amor. Respiro ofegante, atropelando o vento. Cortando suspiros no meio, pra não escapar saudade. Autossuficiência sempre foi um nervo desligado de mim. À flor da pele, mesmo, só aquela pressa solta de ter-ser tudo ao mesmo tempo. Descobri, olha só, que nasci no século certo, no tempo certo - no tempo da preguiça. Exposto às intempéries e tudo o mais, me debato intolerável no claustro que só tu, por mais ferida que estavas - e olha que advinhávamos um ao outro e outro ao um em pouco menos de alguns minutos -, desafiava e entrava sem perguntar, jogando o casaco na sala e dando abraços com os dentes rangendo.
Te escrevo existindo. Você me disse que, um dia, me daria a mão e me levaria para fora disso que eu construí. Você me fez belo, me fez maldito, me cantou, me encantou. Sempre pensei que você nunca teria como cumprir tudo o que você me disse. Impossível.
E veja só - eu estou errado.
Te escrevo também o que pensei e não escrevi. No escândalo do teu sotaque arrastado, cantando as mais altas dores nas madrugadas. Até os desvios em vão - desvãos. Puro estado clariceano, com flores da Cecília que tu me deste - teu último presente, todo grafado. Ganhaste meu presente no meu aniversário. E sabe: não tenho conseguido viver um dia por vez, nem mesmo um por semana. Permaneço naquela fatalidade inócua que me conheceu. Quero dizer: sem descrever espelhos.
Te escrevo insistente. A lua cheia é uma insônia. Entorpece como amor. Respiro ofegante, atropelando o vento. Cortando suspiros no meio, pra não escapar saudade. Autossuficiência sempre foi um nervo desligado de mim. À flor da pele, mesmo, só aquela pressa solta de ter-ser tudo ao mesmo tempo. Descobri, olha só, que nasci no século certo, no tempo certo - no tempo da preguiça. Exposto às intempéries e tudo o mais, me debato intolerável no claustro que só tu, por mais ferida que estavas - e olha que advinhávamos um ao outro e outro ao um em pouco menos de alguns minutos -, desafiava e entrava sem perguntar, jogando o casaco na sala e dando abraços com os dentes rangendo.
Te escrevo existindo. Você me disse que, um dia, me daria a mão e me levaria para fora disso que eu construí. Você me fez belo, me fez maldito, me cantou, me encantou. Sempre pensei que você nunca teria como cumprir tudo o que você me disse. Impossível.
E veja só - eu estou errado.
domingo, 11 de agosto de 2013
Abstinência.
A
felicidade é uma cartada. A final, talvez. Talvez seja uma carta na manga, uma
hora qualquer. Num golpe de vista, toda a procura se esvazia. Fica só o
caminhar esvaído. A centelha cintila, mas fagulha. Na solidão de palidez
monástica, um fôlego ignorante insiste. Insiste em mim. Insiste no sorriso
forçado, na conversa involuntária e póstuma aos goles de café. Insiste na minha
peregrinação urbana constante, nas andanças que cansam o corpo e consomem a
alma. Chega a ser obsceno como se insiste na insuspeita.
Incendiadas,
todas as possibilidades pululam. O inventário: lembranças dilaceradamente
vivas, nem tão longínquas; a vida flui rápida demais. Clandestina é a felicidade,
secreta talvez. Tardia. Tão completamente embriagante que turva a visão.
Destilada, duplo malte. O calendário se faz relógio: os dias ampulhetam. Sem
temperanças.
Não
se abstém. A sensibilidade não é termômetro. Às cegas, todas as juras enfeitam
as palavras. Rasga-se a tranqüilidade, um diário envelhecido. Sujam-se as
cobranças como o falso mel da candura. Descaminha-se, se desconversa. A
insistência é quase um auto-exorcismo da honestidade. Se entorpecer de calma é
privar-se da paixão. Aniquilar a entrega freia os instintos. A solidão da
felicidade é incompreensível.
Inventando
para si toda a sorte de acontecimentos e privilégios, mexe-se na infância, no
olhar, no sexo, nas mágoas, nos desesperos, nos tormentos. A epígrafe da
felicidade é escrita no sorriso. A vontade descabida aborta as lágrimas. O
lirismo embasbacado, a completude bêbada – oscilam as obsessões. Descansam na
prateleira do silêncio os verbos mais intransitivos, mais intransitáveis. Não
existe amor na felicidade.
Engasgada
pela náusea do tempo, a memória não reabilita os afetos. A felicidade
impossibilita que se tateie outro corpo. Cruel, se satura permanentemente. Seu
pulmão é o egoísmo. O equilíbrio delicado dá lugar a uma áspera sonolência – o coração
volta a ser um órgão. Apenas sabe-se que bate. Mal se advinha a face feliz.
Meu
coração faminto apenas rebate. Meus sorrisos amassados. Uma tatuagem em
nanquim. Minha felicidade não alivia. Minha felicidade é um cupido gótico, de
asas angelicais, espartilho e sorriso sussurrado.
domingo, 4 de agosto de 2013
Ode ao café.
O
café é inevitável. Ele é a verdadeira crônica. Crônico. Uma verdadeira
literatura em pó. Durante as xícaras, somos hipocritamente imortais. Um e outro
gole amargo para desfazer o agridoce do bom dia. Um vício sinuoso. Ainda
acumulado de sono, deslizo me oferecendo ávido para aquele pó preto. Duas
colheres cheias, e uma de açúcar. No último gole, o que fica atravessado na
garganta é o cotidiano.
É
um ritual. Com o perdão da pieguice subjetiva, errá-lo traz uma carência sem
precedentes para a história do dia. O gosto do café no beijo de despedida é
quase uma obscenidade: a língua escorrega com lascívia em direção à outra. Fica
a sensação de beijo tardio, que deveria ter sido dado há minutos atrás. As
mãos, ressecadas de carinhos antigos, seguram a xícara com a firmeza de quem afaga
os cabelos. Os olhos sibilam desnecessários, vagando entre as bandagens pós-modernas
e sendo cúmplice de certa invisibilidade matinal.
No
meio da manhã, da tarde, da noite, da guerra, da madrugada, da sala, do quarto,
da fome, o inelutável. A sede de café rasga, queima. Não se adivinha o café.
Sem escapismo nem medo, a longa e áspera solidão do cafezinho destrona a
solubilidade das próprias esperanças. Austera e cruel, a boca que se enche nos
goles procura uma outra boca funda e úmida, também desenganada pela hipocrisia
imortal.
Assim
como o cigarro, e ainda mais do que ele, o café é um instrumento do silêncio. O
líquido manipula os lábios, a língua, os dentes, o hálito. Tudo o que sobra – e
quanta responsabilidade nisso – são os beijos. Tão intensos, quase tão místicos
quanto a sensação de areia seca antes deles. É sim intuição. É todo esse
alvoroço químico-místico que vira furacão numa fração de segundos. Segundos
contados a goles. E o tempo crispado nas mãos, dissolvido junto na xícara.
Na
impiedade dos jornais atirados nas calçadas, das ressacas etílicas e
emocionais, na relutância das roupas penduradas nos armários, no embuste dos
compromissos adiáveis e odiáveis, no inconsolável momento de deflagração apaixonada
do olhar de quem ama – o café é o afeto mais forte do dia.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
A Divina Comédia.
Se o inferno são os outros, é inaceitável que eu mesmo seja um paraíso qualquer. Errante, passo uma temporada no inferno não como retardatário, mas como habitante. Aqui, é como se tudo se suspendesse, e algo latejasse incessantemente - a carne revirada, crepitada pelo desejo. Todos os vinhos correm pelo sangue, toda a vida aberta ao derramamento do sangue bombeado pelos olhos. Observo os bêbados: abençoados sejam por permitirem a fluidez.
A amargura da beleza se põe como o sol - o poente de uma veia esticada pela morte. Ridicularizado, o riso febril da passagem abre o festim do desespero contemplado - embriaga. A origem gótica do sofrimento. A ancestralidade da solidão compactada num corpo desprovido de profundeza. Perdido no plano da pele, vagava senil a poética crueldade, tão crua e áspera que era o abjeto de deus. A perdição crua era sublime: a revolta violenta do corpo contra o espírito intempestivo. Ímpeto e fúria, romantismo exacerbado, a fundação da nova sensibilidade como envenenamento dos sentidos.
O inferno pelo orgulho, o inferno pelo amor, o inferno pelo ódio, o inferno pela doçura, o inferno pelo silêncio, o inferno pela fatalidade. A sinfonia da marcha fúnebre numa ópera transformada em batimentos cardíacos. O pântano libidinoso da carne humana lacerada pelas mais variadas e desvairadas bocas, a confissão delirante dos afetos tatuados e envolvidos em si mesmos, a delicadeza da mentira roubada dos céus, feito asa para voar sobre a moralidade. Num sussurro mortal, todas as outras vidas estão condenadas, nenhuma outra é possível. A tristeza desconhecida é o punhal da mão esquerda que mata a alegria herege.
A figura humana desprovida de segredos, tão imponente e vagabunda que a liberdade se fez província. Assustadora e visceral, provoca o assassínio das imagens. Cada vez mais distantes, sem glórias vãs nem patéticas saudades amistosas. A poesia é uma maldição concreta. O silêncio escrito, a geometria da vertigem desenraizada. As lágrimas são sêmen, todos choram o gozo. O sexo é o mais alto posto. O horror do divino, a invenção dos instintos, a profanação dos mistérios. Minha solidão matou a morte.
Assinar:
Postagens (Atom)









