Aqui jazz. A gaita gemendo ao fundo, como no pé do ouvido. Meu barco bêbado: ressaca afetiva antes da etílica. A solidão da garrafa no chão. O coração é meu barzinho. A vontade entre as coxas não amansa. Entre uma e outra dose - pura e direta -, a risada estridente abafando. Aquele cantinho todo vomitado. A cama, meu meio-fio. Minha sarjeta roubada. Talvez tenha confessado tudo antes da hora. Acordei sob o signo errado. Sóbrio sem querer. Cambaleando entre um poste desligado e minha coragem atirada de carregar o mundo com os olhos. Um canalha. A meio passo de uma transa sem ensaios. Lençóis amassados. As horas derramam os ponteiros. Desocupo as roupas, caio em desuso por um final de semana. Um cigarro aceso, tragado sem nunca ter aprendido. As semanas não se oferecem, eu escrevo. Atravesso o porre sem esvaziar o cinzeiro, sem lavar os copos, sem apagar os versos da parede, sem tirar o batom da camisa. A louça cuspida na cozinha. Só o tapete esticado.
As palavras são a náusea do vazio. A solidão e a angústia, filhas da mesma substância escura da noite absoluta e impenetrável – esses dois sintomas da doença literária.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Estudo em furta-cor.
Aqui jazz. A gaita gemendo ao fundo, como no pé do ouvido. Meu barco bêbado: ressaca afetiva antes da etílica. A solidão da garrafa no chão. O coração é meu barzinho. A vontade entre as coxas não amansa. Entre uma e outra dose - pura e direta -, a risada estridente abafando. Aquele cantinho todo vomitado. A cama, meu meio-fio. Minha sarjeta roubada. Talvez tenha confessado tudo antes da hora. Acordei sob o signo errado. Sóbrio sem querer. Cambaleando entre um poste desligado e minha coragem atirada de carregar o mundo com os olhos. Um canalha. A meio passo de uma transa sem ensaios. Lençóis amassados. As horas derramam os ponteiros. Desocupo as roupas, caio em desuso por um final de semana. Um cigarro aceso, tragado sem nunca ter aprendido. As semanas não se oferecem, eu escrevo. Atravesso o porre sem esvaziar o cinzeiro, sem lavar os copos, sem apagar os versos da parede, sem tirar o batom da camisa. A louça cuspida na cozinha. Só o tapete esticado.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Walk on the blues side.
Sou eu quem toco
o blues
que ela dança,
se lança,
perfeita,
entre outras pernas,
outras bocas.
Toco notas cruas,
ela nua
no espaço entre
o solo lento.
Gemido.
Baixinho,
no ouvido.
Sou blues pensado
no seu seio,
com o bico me olhando
duro, rijo. Ela
me ouve, de graça,
entre um cigarro
e outro. Meu ciúme
consumido.
Numa nota mais
aguda, a fagulha.
Ela me acerta
na nota mais alta.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Pequeno dicionário da inexperiência.
Eu. Outro. Interior. Exterior. Amor. Ódio. Ciúme. Perdão. Desculpa. Gentileza. Pecado. Milagre. Bem. Mal. Bom. Ruim. Perto. Longe. Distância. Raso. Profundo. Imanência. Transcendência. Ascendência. Dia. Noite. Silêncio. Palavra. Raiva. Solidão. Selvagem. Humano. Número. Símbolo. Parar. Continuar. Contínuo. Descontínuo. Atração. Repulsão. Confusão. Difusão. Associação. Dissociação. Rápido. Devagar. Suavidade. Peso. Harmonia. Caos. Conhecer. Desconhecer. Começo. Meio. Fim. História. Geografia. Acompanhar. Ritmo. Dispensar. Velho. Novo. Esse. Outro. Isso. Dilatar. Conter. Esperar. Contar. Longo. Curto. Perder. Achar. Encontrar. Vazio. Preencher. Encher. Cheio. Escrever. Descrever. Inscrever. Lembrar. Esquecer. Pedir. Drama. Comédia.
Nada disso existe.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Nepente.
Eu não sei pedir muito. Aliás, nem sei mesmo como fazer as perguntas certas. Talvez me seja impossível. Pedir foi sempre nervoso. Um sacrifício inevitável. Nunca descansei ao desmaiar lucidamente e proferir aquelas palavras. E o chão nunca acolheu meus irremediáveis, blues e mordidas. Mas nem isso eu peço. Pedir é uma questão de tempo. Um improviso. Aquele olhar incorrigível, egoísta. O surpreender emocionado. Coleciono pequenas lamentações, em goles. Pedir é humilde, bem como depender. Mas não pronuncio. Vivo subitamente, como a água correndo. Tão vermelha e afirmativa.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Mate os teus.
- Um a um. Lentamente. Asfixia, veneno. Em silêncio. Sem explosões. Sem palavras. Comprometido. Até o fim. Ante a mim. Com fervor. Sem amor, só a loucura. Suicídio compulsório. Mais de um. Menos que um livro. Mais que uma música. Uma camisa. Um cabelo. Um cabelo sem voz. Uma barba. Uma boca costurada na língua. Tudo. Enquanto nada. A possibilidade do grito. Sem espírito. A alma no ombro. O céu nos olhos. O inferno, os outros. São. As sobras da sombra. As sobras dão sombra. As sobras, minhas. Eu, também.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Zelo.
Arrasto meus desconfortos para o transe do silêncio. Meu mundo flutua no cotidiano.
Resgato as aproximações desistindo de conviver comigo mesmo. Escutem. Escutem meus lábios que se abrem apenas para mordidas. Ouçam minhas lágrimas como ouvem a chuva batendo na janela.
Meus murmúrios secos dentro da presença inchada. Porque toda permissão é incomunicável. Quero viver os livros que não escrevi, para toda a poesia que já vivi.
Minha vida cuidada. Minha vida a cuidar. Saudade é não conseguir mudar nada. Clichês cuspidos na calçada. Uma letra do Robert Smith na voz de Johnny Cash. Roupas dispensáveis ao pé da cama. Os sonhos lúcidos no travesseiro. Os outros ejaculados num poema. O corpo avarandado.
O cigarro nunca tragado, ridicularizado. O coração unânime. A desimportância desafiando. A bagunça aguentando. A segurança claustrofóbica. O riso em banho-maria.
O olhar em vanguarda. Um porre cruel. A permanência da vontade. A insistência da memória. Confissão ignorada. A sinceridade comovida. A surpresa suspensa.
A dor suja, incapaz de tirar uma foto.
O hoje lento.
A alegria tentada.
domingo, 22 de setembro de 2013
E é sobre o teu poema imoral.
Você arruinou cada camada de linha tênue do meu auto controle e degolou toda a minha imbecilidade sem ter nenhuma esperança de receber algum indício de gratidão da minha parte. E agora o que te dizer além de que conseguiu penetrar na minha corrente sanguínea, fazendo assim, agora, parte de mim? O que você é? Alguma espécie de neurologista filho da puta? Se é que isso faz algum sentido. Mas não importa. Sobre as minhas vísceras, por de traz das minhas córneas e dentro de mim, a textura do teu toque e a pressão do teu beijo se harmonizam com a falta de amor que meu corpo gélido esteva acomodado a receber. E tu chegara assim, com esses pelos indisciplinados no rosto, e o cabelo perfumado embrenhado com o cheiro da tua nuca, disposto a fazer de mim um poema fora do ritmo, com versos depravados, incompreensíveis pela falta de vírgulas e me fizestes ser mais uma vez, feliz, por decidir não colocar um ponto final.
Ao avesso, sou de novo teu verso. Uma versão mal acabada daquela música que eu não lembro mais. Fizeste do meu cabelo uma tirolesa pras tuas palavras, que passeiam em mim tão fáceis que me arrepio. Te ventilo com meus sussurros. Tu me amordaças com a boca, eu tão pálida me ruborizo. A harmonia visceral que me toma e te queima – as brasas na língua – é uma peça esquecida e soturna, quem sabe composta pelo Fantasma da ópera. Nossos gritos são ritos, chamados ancestrais do amor que nos condenava canibais desde sempre. Tu te despes, eu desperta me disponho. A tua falta de vírgulas, o meu excessivo incômodo por pontos finais – tudo nos levou à essa informe pontuação, sem sentido, escrita à sangue na talha do corpo. Desatinamos a ser a linguagem bruta das línguas mortas.
Se me matas sempre que me faz correr um risco de ter um derrame quando me olhas; se estou perdida nessa multidão, e se vem tu e me enxergas; E eu aceito me despir pra você... Vai ver que o avesso desse poema imoral, é mesmo o nosso lado certo.
(Ellen Gabriele/ Matheus Rocha)
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Passagem concretista.
E eu me pergunto
até quando
devoro,
até quando
vomito,
até quando
até quando.
Até quando
me devoro,
vomito.
Até quando
me pergunto,
vomito.
Até quando
vomito,
me devoro.
Até quando
vomito,
me pergunto.
Até quando?
E depois
expulso.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Outros Mofos.
Caio.
Tô te escrevendo na madrugada quente,
num apartamento que não é meu. Não sei como começar, na verdade. Uma citação
tua, ou da Clarice. Ou outra assim. Não sei. Lá se vão – quantos, mesmo? –
dezessete anos desde que tu deixou tuas coisas do mesmo jeito, sem mudar nada
de lugar. Eu era ainda bebê, velho. E senti tua urgência.
Aqui tá quente. Não me sinto tão
aquecido. Mas tá quente. Tenho essa semana longe de casa, vestindo preto o dia
todo – já me acostumei. Um supermercado aberto o dia in-tei-ro aqui na frente,
imagina? Ah, mas falta dinheiro. No player, a voz do Cícero embalando meu
cansaço. Não tenho dormido bem. E não consigo deixar de te ver. O tempo todo,
profundamente e misticamente no meu dia. Não é que eu queira deixar, ou que
escrevo pra te exorcizar. É força e carinho. Mas é difícil me dar com a
impossibilidade ontológica de não te ter aqui. Assusta, cara. E tu não tem
ideia do quanto.
Sim, sou um cara que permanece na
hesitação do corpo. É quase imperecível, você sabe. Fico me batendo no
apartamento, a uma e meia da madrugada. Soa inconveniente, mas não. Sabe aquela
desintegração, que atravessa a noite, vara a madrugada, esburaca o dia, enovela
a tarde? A sensação profetizada, sempre: aquele medo de rejeição. O medo amputado
da própria sobrevivência. Então. Fico aqui olhando pra ela, projetando minhas
possibilidades carcomidas desde sempre. Tenho pressa, Caio. Não sou impaciente.
Mas tenho pressa.
Sou tão fresco e neurótico quanto você. Coisa
de escritor, talvez. Eu, pelo menos, me penso escritor. Mas tô muito longe. Vivo
um melodrama cotidiano desfiado nas palavras. Vez-em-quando apelo para a
astrologia – o ‘apelo’ não foi agressivo, por favor -, tentando desenhar no
mapa essas minhas disritmias. Demorei pra entender que eu sou também o que
escrevo, e não só. Me exilei em outra cidade – uma semana só, ainda não sou tão
grave – pra tentar alguma coisa. Não me pergunte o que, eu não sei. Mas me vi
dentro de um segredo nem tão secreto assim. Mas permanecerá silenciado, por
enquanto.
Queria morar no Passo de Guanxuma. Não,
não um personagem seu – por mais requintado que possa parecer. Muito perigoso,
talvez. Tenho tanta coisa pra escrever, sofregamente pronto dentro de mim. Um
livro de contos, o primeiro. Sem nome, ainda. É um estado de nuvem. Tudo
nebuloso, lamacento. Queria um cigarro. Queria não: quero.
Pausa. A madrugada varada.
Fico olhando pra minha estante – teus livros
todos emprestados. Não sei se voltarei a vê-los. Sou inábil para dizer não. Mas também não me frustro assim. Nem me amargo
tanto.
Mas olha, hoje é seu aniversário. Não vou
sair escrevendo aquelas baboseiras tradicionais – você deve estar cansado de
ouvir isso. E eu tô cansado de dizer, também. Fico olhando pra minha pedra
esotérica de touro, um quartzo rosa que tenho há uns quatro anos – essas coisas
me lembram de ti.
Vim me confessar, também. Eu sei que
você tá longe daqueles monges – um obsceno senhor C, talvez. Acho que tô no
limiar, no limite branco, Caio. Caio. Ali naquele estado de torpor-amor – os olhos
brilhando. Purpurina sólida. Ah, isso: te desejo muito líquido e purpurina,
querido. Sem inventários, mas sempre o irremediável. Ir-remediável – faz uma
tremenda diferença. Desequilibra a calma, sabe?
Acabei de ver a chuva mudar e direção. Um
balé clássico, seduzido pela Ana Botafogo e as notas saídas na voz da Amy
Winehouse. Acho que você gostaria dela – porra louca, uma literal casa de
vinhos mesmo!
Li tuas cartas. Gostaria de receber uma.
Mas te mando essa. Publicada em qualquer canto, pregada na parede feito anúncio
de venda talvez. Leio teus livros – tenho um conto escrito pra você. Ainda quero
aprender a tocar piano. Tocar uma peça do Brahms, medonha e melancólica. Um copo
de vinho – talvez vodca – em cima do piano. Cafona. Fico catando as dores pra
ver se sai algum texto. Na frente do computador, em alguma rede social e quase
sempre ouvindo alguma coisa.
Talvez se você estivesse aqui, doesse
menos. Talvez não. Ou talvez nada mudasse. Mas sinto que seríamos irmãos,
primos, cunhados, amantes, pessoas que se traduzem aos amassos quando bebem
demais. Desculpa, sou mesmo assim confuso. E às vezes quero me aproximar de
você da única forma que sei: escrevendo. Sou taurino com ascendente em câncer –
aquela sensibilidade nunca pós e sempre pré tudo. Com marte em leão e plutão em
escorpião.
Mas também somos muito diferentes. Te escrevo
também por isso: pra cuidar de mim, e de ti. Por esse meu querer violento e
exacerbado. Por essa tua compreensão encantada e desoladora. Por tudo. Por falta.
Por amor. Por você.
Um abraço, com carinho e cuidado. Onde quer
que estejas.
Com saudade e o amor de sempre – não é?
E um beijo, Caio.
Matheus.
sábado, 7 de setembro de 2013
Na espuma.
em goles secos.
Os corações na sargeta,
pisados, ancorados
no destino dos passos
errados, rápidos,
ríspidos. Amor é uma
palavra pequena,
cabe em qualquer boca.
Cabe no beijo roubado,
sempre na ponta
da língua molhada.
Escapulo no arco
da vida, na flecha
do dia apontada
pelo cupido. A velha vida
adiada fica
mais próxima, a vida
antiga
agita
e grita
na mesa.
Eu torno mais um
copo que
desce em goles secos.
Não decido
à última hora.
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