sexta-feira, 9 de março de 2012

Autobiografia do Silêncio

     

     Enconstado no silêncio, não morreremos da verdade. Sem as revelias expurgatórias de uma realidade barulhenta a inundar os sentidos, com suas ebriedades e desfaçatez características, o puro estado silencioso avilta novas paisagens através dos encontros, sempre novos, entre o corpo e as quietudes do espelho sem vidro do tempo. O espírito desdobra-se a encontrar um novo contorno, um novo plano palpável, uma nova escultura a ser desenhada nos meandros da pureza. A clandestinização do silêncio, a pleitear novas biografias contornadas pelas velas acesas, convulsiona, desregra o sentido. O estado de torpor é inevitável: toma-se conta da purificação tempestuosa que se debate. Relegado a um plano secundário, marginalizado para à flor da pele, o silêncio abafado dos afetos acaba por derramar-se na corrente sanguínea. Derramado, subtrai-se ao eu. O silêncio é a Alice atrás do espelho. Não vê, sente. O desvio das palavras, esvai-se a lógica, desregra-se sentidos, multiplicam-se os afetos, afetam-se outros corpos. A intervenção cartográfica, a hibridização do corpo ao tempo, o afeto incontrolável.
      Não, silêncio não é resistência. Insuportável pensar numa mera resistência às palavras, os afetos depontados no plano do silêncio escapam. As palavras tomam o silêncio, e eis uma nova política quando as palavras tem por objeto este silêncio! Insuflado de espera e desejo, não se silencia mais. A quietude que espera e deseja apenas se cala. Flutuação nômade pelo afeto, o silêncio reifica-o. Integração imanente, o afeto torna possível o silêncio. Se há algo a se compreender, que seja este silêncio:

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Anjo,



Num sobrado, uma sombra morava nas recordações carcomidas daquelas madeiras. O alaúde feito pelo pôr do sol, em meio a tantas placas e tantos avisos, era uma grande aquarela poeticamente pintada pelas cores que faltavam. Os movimentos imprecisos, movimentos de primavera pós-inverno, na casa fechada, habitada pela sombra. O vento em sopro, o corpo em brasa. Infausta, a sombra pisava em falso em cada recanto da casa. O passeio pelos cômodos não era cômodo. Pôs os pés na poeira, relanceou o olhar em direção a janela. Fechou as cortinas. Entortou o relógio, mascarou a cama.

Voltou a ser noite.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Corpo Nu.


Atropelar a estética e distribuir os devires sobre as linhas do corpo. As facetas se diluem, as lágrimas orvalham. Aparentemente, as pessoas levam as palavras a sério. Nas palavras, as aparências parecem ser levadas a sério. E pra uma seriedade, nada mais limitante do que ser encontrada em qualquer canto. Desnudar esses entremeios, fazer ver aquela fecunda e informe massa material. Tão desgastadamente retida em lápis, sombras e maquiagens as mais variadas.  Uma parte dela, a face, conhece apenas os rumores de algumas bocas. As personagens se despersornalizam em instantes: basta jogar água fria. E o que se vê de alguém, se vê a alma. O flexível e incorruptível plástico, embalado numa sensibilidade pueril. Improvável prescrutar a limpidez de algo que se estagna em um canto só. Mas esquecemos o corpo.
O influxo corporal é habitado por dobras. Território sensível, sujeito a orgasmos. Sem disfarçar, um corpo nu. Tenho uma nostalgia pálida dos tempos que se viam como se fosse o primeiro acontecimento. As cores da superfície encabeçam a lista de imperfeições. O corpo é um papel.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ensaio sobre um Exílio.


Nas mãos fechadas, dois adjetivos envelhecidos. Entumecidos com o tempo inesgotável que entrava como areia nos olhos. Sangrava um amor líquido, escorria. Um derramar constante sobre a pele, simétrica de linhas que compunham um desejo enegrecido no ventre. Nunca precisara inventar sentimentos, eles fluíam, escorregavam sobre o corpo. Os pingos deslizavam, não pareciam caber. Um princípio assustado de vida, um susto que carrega a compreensão, o fulgor imortal que persegue a carne e seus traços desejosos. A insolúvel moradia, arrebatada pelo tempo, insuflada pelo sexo, aprisionando uma espécie de sorriso amarelo. A potência virgem do invisível agora era um peso insuportável, cru, mudo. Um riso roubado do infinito, numa impaciência tardia, susurrava a aura do que avançava à frente. A impermanência dos espelhos, dos reflexos, das sombras, dos vidros, dos cacos, da cama, a impossibilidade de habitar a própria chama, assisti ao parto da chuva e ver o primeiro relampâgo iluminar a face, escutando um velho bardo soar ao longe enquanto caminha de mãos dadas pela praia. À beira daquela imensidão obscura, catatônica em seus respiros, virara um pedante de si mesmo. E mendigava, mendigava em passos para o futuro. Respingava, escrevia seu diário de um dia só. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O lado escuro da Lua.


Onde todos os ocultos se mostram, se mostram ainda ocultos na lassidão de seus quereres. Um uivo sombrio de um coração que pulsa, que bate, que implora ser ouvido. Mas só a noite o escuta. Só a lua o escuta. O lamento choroso que irrompe, atravessa o desmaio delirante e se atira num penhasco. O salto alivia o vento, o peso do vento. O corpo que cai, o corpo que salta, o corpo que voa em liberdade absurda. Um corpo, de carne e osso e rosto, e nome. E fome. E ânsia. Cair não é a última parada, impactar-se com a transição oculto-desvelado é quase um sentimento. Incólume descoberta sem nome. Anônimo. Transgredir é quase atropelar-se, sumir-se em meio à multidão. E prender o corpo numa etiqueta? Porque usá-la seria algemar-se. No amparo, as asas um dia usadas querem bater de novo. E depois, sem se importar, a urgência finge ser espetáculo toda prova dada à resistência. Um último eco vindo da voz oculta, que surge do fundo, fazendo pedidos. Os pedidos que anseia são os mesmos que ele não dava, não passava por si. Como a derradeira coisa que resta a um homem. Uma sensibilidade que inunda o rosto e mostra, talvez, a face da urgência: o desespero. O estado onde se encontra a matriz de recolhimento parece ter sido jogado fora. Face o vento. Braços abertos, mãos vazias. Poeira que cobre e encobre. Visão turva. A entrega perpétua acontece com o passo dado. Passo em falso? Caia. O corpo não aguenta o peso da arte.

O céu não é o limite. Há passos no lado escuro da lua.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Do Mar.




Por ser sereno e tranquilo, o mar é eterno. Por ter a paciência do infinito, por infinitar sua paciência e salgar corpos retorcidos. A ponte da areia e da nuvem, onde a lua encontra o leito e pousa, e re-pousa e dispensa olhares. Recortes de instantes, captar a totalidade insípida, como chuva condensada. Á beira, sentado na esquina do mundo, um receio de saber o outro lado. E nadar, e nadar, e nadar... e nada. Nada, o tempo todo. Incolor, dissabores salubres cobram penitência com falsas pegadas na areia, que o mar insiste em querê-las. Quer os passos dados, por não saber dar passos. Traga pra dentro de si toda aquarela de matizes dispostas num raio de sol, que o olhar tanto se esforça para desconstruir e chamar de arco-íris. Exageros de contemplações em fins de tarde com um pôr-do-sol que virá laranja-vermelho, plácido e cálido, alimentar as últimas cores. Acalantar o abraço doce da noite, com declarações rasgadas de amor pra sempre. Até se pôr, invadir o mar. E ir bater na areia, fazer morada nas ondas. E nadar, nadar, e nadar. E nada, o tempo todo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Naquela Estação.

   

Há, pelo menos, formas menos fixas de se andar pela rua sem ser notado. Não passar é redundância. Porque não se fazer ali, é quase castigo ver tudo acontecer.  Sentado, no canto da parede, olhando tudo à sua volta se aproximar mais e mais. Ficando quase cego, ofuscado pela luz de um sol que teima em brilhar e dar cor. Amargura condensada, elevada à máxima potência vira tristeza. Uma longa olhada pelas dobras, das esquinas e das pessoas, o empoeirado vai cobrindo e dando forma a corpos de terra. De barro, modelados pelos abalos e encontros ao longo do caminho. A velha dor ajoelhada, minutada em guardanapos. Algumas palavras levadas ao bolso, outras soltas pelo asfalto. Às desafinadas, desavisadas e desajustadas esquinas, entrego meu silêncio e a súplica dos meus passos. Tortos, rotos. Clemência num beijo, choro num abraço qualquer. E fazer canto, e se demorar em ruas e andanças. Nessa dança da solidão, a rua guia apenas o olhar. Meio bêbado, quase caído. Quase sendo um passo, de chão tão perto. A sombra insone persegue e me beija. A moldura do porta-retrato, toda cinza, toda antiga. Toda velha. Seco, surdo e mudo, o dia assiste a caminhada . Me roubaram o amor-próprio, e foi por isso que amei. Por que não me tinha mais. Arrastava o tempo entre minhas falsas pernas, levava mesmo era os guardanapos minutados, e só. Na contramão, alguns vira-latas, lixo, asfalto, postes e iluminação. Alguns fogos, artifício, explodiram lá em cima. Me junto aos saudosos, borro o chão com alguns passos e, enfim, caio. Sou de barro, também! Me misturo ao chão, ao pó, ao relento renegado que pisam todos. Um pouco de fôlego, um pouco de embaraço. O próximo trem chega: a ausência me apanha, enfim. Borrado como o chão, parto no trem da ausência com as lágrimas servindo de aquarela para escrever na janela. Não vou apagá-las. Do outro lado, na estação, alguém pode entender como um aceno.

sábado, 1 de outubro de 2011

Cup of Coffee.



Receitas de como ser feliz, livros de auto-ajuda e imperialismo estão à venda em todos os cantos possíveis. A prostituição da ação, irremediável? Que tipo de bula entregam pra esse tipo de coisa, esse tipo de gente? Afogo-me em xícaras de café. Forte e meio-amargo, de preferência. Jogar conversas acompanhado de um bom café abstrai e suspende toda e qualquer pendência deixada para esta hora. A vida em cigarros e cafés, em preto e branco mesmo, entra e sai a todo momento. Inverno também tem muito preto e branco, café esquenta, lá fora é frio. Algumas pretensões escapam em tragadas, outras são engolidas de uma vez, queimando a língua. Sei que entre cafés e cigarros e conversas, sintonias de preto e branco em corpos anônimos. O tráfico, a clandestinidade de quem vive preto-e-branco, cafés e cigarros. As brasas ainda queimam, a língua ainda queima. Dois tons que se tocam, se expandem e dão linhas. Lineares, nem tanto.  Expresso, duplo.  Duas cores solúveis, diluídos.  Espresso, espessa.  Algo de muito particular em dissolver duas cores tão epifânicas.  Inspiração, folha em branco, silêncio, noite. Preto branco inércia.

sábado, 24 de setembro de 2011

Solitude Reticente.

Mas, agora, eu me fui. Me fui, me sou, te sou, me sinto, tu pulsas ainda. Sem carne e osso, com nome e rosto. Essa solidão que se demora, demora pra dar passos. E agora, enfim, o incômodo. Incômodo dilacerante. O peito aperta, a boca erra, os olhos choram. E aquilo que é, tem que se esconder. Os rastros caídos no chão, nem se importam com a poeira. Se põem as marcas de ranger de dentes, de lábios trincados, de lágrimas em partes, partidas. Partida. Partido. Já não aguentaria mais prender sensibilidade em palavras, em linhas curtas, em frases com pontos finais. Eu, sempre reticente. Reticências... e vírgulas. Pausas históricas, contrapontos desinformados sem saber a hora de voltar, ou se vão, mesmo, voltar. O rosto vira expressão, a face vira ambígua. O encontro com os estereótipos sofridos das areias do tempo consomem o corpo, fazem rugas, envelhecer. Envelhe-ser. As mudas de roupa, as toalhas de mesa, os copos descartáveis, os beijos em copos (beijos descartáveis?), o comedimento de ações e propostas ao delírio de um sol vermelho, como um rosto. As maçãs do rosto, o vermelho do nascente. Aquele velho e conhecido receio de que nada vai alimentar. Na verdade, re-seio.  Dobravam-se colchas, retalhos, embrenhados nos lençóis da cama. Unha e carne, lençol e cama, água. Por em gotas, contadas, cada expressão extasiada de um amanhecer arredio. Devagar, despontava. Os olhos, janelas alucinadas, esperavam, esfriavam, esquentavam, entorpeciam na entropia do sol . O sol saía do horizonte, mas não saía da cama. Parecia quente, satisfatório. Menos passos e mais olhares, menos corpos e mais prazeres. Com um pouco de tédio no gosto da boca. Entupia-se prazerosamente de sensações menos complexas e mais diretas, menos saturadas de futilidades catatônicas. Podia sempre olhar. E mais: era como se tentasse render seu desejo. Seu desejo que não havia sido, jamais. Era quase um assalto à luz, deixar-se levar pelo que via. Irrompia aquela solidão matinal, quente em sua aparição e fria em gestos. Polidez de lençol, cobrindo o corpo, dando aspas às linhas espontâneas. Interferia nos pelos, resgatava gotas, cobria o calor. Extremidades sem peso e sem lençol, cruas à luz dos raios da primeira hora.  Frêmitos quase vomitados de tão rápidos. Um suspiro náufrago, reticente.

sábado, 17 de setembro de 2011

Porque Era Ela.

    
    Era tudo meio embaçado, feito olhar na janela de um carro em dia de chuva. O riso frenético, quase incontrolável. Era quase carnaval pra um dia como aquele. Um domingo, talvez? Quem sabe. Esquinas, mil buzinas, e eu ali esperando no trânsito parado. Escura madrugada, o diário secreto dos poetas é aberto. Eu não sabia explicar, nada. Só me vieram, de volta, essas imagens antigas. Devia ser porque as palavras do diário saltavam aos olhos. Elas se faziam cinema, por si próprias. O diário. Onde todos os ocultos se mostram, se mostram ainda ocultos na lassidão de seus quereres. Um uivo sombrio de um coração que pulsa, que bate, que implora ser ouvido. Mas só a noite o escuta. Só a lua o escuta. O lamento choroso que irrompe, atravessa o desmaio delirante e se atira num penhasco. O salto alivia o vento, o peso do vento. O corpo que cai, o corpo que salta, o corpo que voa em liberdade absurda. Um corpo, de carne e osso e rosto, e nome. E fome. E ânsia. Por um instante, ela tomava um banho na minha frente. Na madrugada, ela tomava banho de lua. Foi assim que cheguei ao café. 
    O café borrava o batom dela. Quente e breve, como o cafezinho, ela me olhava. Eu apenas devolvia o olhar, num jogo de desejos que se chutava embaixo da mesa. Não cabia, ali naquela casa, meu olhar mendigo. Olhava pra ela, devolvia seu olhar em meus olhos. Seu olhar melhorava o meu. Ela me sorria, me olhava, me chutava, me assombrava com a sombra dos olhos. O diário, janela a fora.

- Me leva pra andar, por aí.
- Quer ir comigo?
- Quero. Não posso ficar aqui, mais.
- O diário está aberto.
- Escrevamos a próxima página, nós dois.

    Madrugada a dentro, linhas foram escritas. Os lábios se flagravam juntos. Os meus, ainda e sempre, alguns instantes eram bastantes lascivos, os dela molhavam. 

- Abre a porta, pra noite passar.
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