quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Autoconfissão.



Não pude quanto o indelével romance de minha vida. Tremo quando penso que forjei um personagem inexistente, atuando apenas nas páginas soltas de qualquer coisa escrita. Mudou o foco das minhas intelecções, estas tão impugnadas quanto este afeto embotado que carrego dentro do peito. O que me dizem as pessoas, se nada posso ouvir com este ouvido surdo para fora? Eu nada ouço, senão meu coração. E mesmo este mantém um ritmo constante, suportável apenas dentro desta matéria inexperiente na qual está encarcerado. Pois quando posto pra fora, embora nunca seja moldável em condição extrínseca nenhuma, este se confunde tragicamente com as sensações experimentadas por sob a pele. As cavidades que o compõem, sejam átrios ou ventrículos, são tão internas que são já da carne, não mais dele mesmo. Aliás, é precisamente isto que tomo: meu coração não pertence mais ao meu organismo vivo. Não é sua ideia biológica que gravita para sempre em meu sangue e células. Não vejo mais a separação metafísica entre corpo-máquina e afeto-sensibilidade. Minha anatomia autófaga – sou todo coração.
Para cada parte menosprezada, ou que outrora não lhe havia sido outorgada o crivo de pertencer ao corpo, desce uma lágrima que escorre dos olhos – e esta logo vai ao peito, somando aos pelos um novo afeto. Minhas veias atrofiaram, embora o sangue que me corre é mais denso que qualquer licor, e mais extenso que qualquer água. Explodiram em sua passagem, não são mais limite ou condução de irrigação: meu sangue agora flui veementemente por todo o corpo. Encharco minha pele à menor pressão. E por mais que as coisas se atrofiem a ponto de me sentir claustrofóbico dentro de mim, a autofagia deste processo me deglute pouco a pouco. Alimento-me de mim mesmo, num egoísmo cristão de tão solitário.
Não tenho o mesmo sorriso fácil e jocoso esculpido nas estátuas dos santos. Meus exageros saltam sobre as sobrancelhas, enrugam a testa como se acrescentassem um mínimo de pele em mim. Mas o imperturbável limite, mesmo no meu exaspero torrencial em escritos e leituras, se deixa impassível. O silêncio onde Deus teve de vomitar o mundo para não se nausear consigo mesmo – esse silêncio obscuro entre as batidas do coração. Indecifrável contingência dos traços desenhados pelas vassouras das bruxas que cruzam os céus. E o céu da boca, com as estrelas e estalos dos beijos roubados, esses pequenos artífices de afetos – esse que os ruídos do coração se fazem volúveis para serem ouvidos.
              Não degusto nem minhas pausas. Até os predicados que uso para me compor, ou para deitar estas palavras pretensiosas, são todos eles sintaticamente (nunca simpaticamente) compostos por dúvidas. Nem os entremeios do silêncio, onde tropeço desastrosamente nos meus dias insones inacabados e inalteradamente inesperados. Estes são atenciosamente arredios, especialmente lentos enquanto embriago soberbamente os papéis. As únicas gentilezas, por assim dizer, a que me dedico são os cafés – descafeinados dos prazeres todos. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Do amor em tempos de sombra.



Acordei de sobressalto, assustado. Ameaçado pela silhueta que me encarava com um doce sorriso e um olhar inquisidor que conheço bem. Aquela sombra fantasmática já me acompanha há um bom tempo, hospeda em minhas lembranças, memórias e ruínas. Ela não se cansa de estar aqui. Meu medo insano me surpreende. Anseio pela sua partida, sei que o tempo não vai apaga-la. Ela se desvanece aos poucos, evanesce depois sua face que tanto me faz ver. Em seu domínio, minha aflição faz morada.
O vão da tua ausência que me falta todos os dias deixa continuamente perdido de mim, mergulho na virgindade do invisível. Afogo-me diariamente nas tintas das canetas. E tudo o que escrevo é apenas enfeite, talvez do meu próprio caixão. Borro, risco, rasgo, pinto, mancho, sujo. Meu interminável contorno. Não, sem máculas ou glórias: sou cúmplice dos meus fracassos. Tão mais cúmplice deles do que das minhas parcas vitórias, se é que existem. Os ruídos da existência, ausentes dos meus contornos e inacabados pela beligerância das formas gestadas, apanham minha vontade de existir. Faria-me perfeitamente em cada linha deitada sobre o papel. Acabaria fazendo dos meus personagens minha própria chacina.
A sombra, o fantasma – meu grande amor tombado. O nobre passado por onde escorre essa saudade infinita – a sombra habita meu presente, eu ainda sou uma hipótese daquele passado não tão longínquo. Sou o lastro das fraquezas alheias. Meu amar é um bucólico conjugar de verbos distorcidos, carcomidos pelas traças da eternidade. Devorar, habitar, ser, entregar(-se), alterar(-se). Meus prantos tumultuados, tão desafinados quanto as cordas do violão velho que guardo no quarto, tão desvairados e estridentes e desavisados. Inoportunos. Lavrando meu corpo e minha posterior carência, peco pela omissão tardia dos afetos que tentaram se sobressair e sobrecarregar os traços que componho. Foliar a perda inebria e embaça o choro.
Desabrigo embaraços, desenlaço dedos e mãos, distraio minhas verdades e traio subitamente os perdões concedidos na sonolência das paixões. Abro o velho baú, empoeirado pelo esquecimento. Inventei poeiras para encobri-lo. Decompus minhas distâncias em nome da sombra, sempre feitas horizontes aonde nunca cheguei. Tropecei agonizante nos espinhos da coroa de um cristo caído, lacerado pelo egoísmo humanamente cultivado. Minha gólgota é meu próprio corpo: crucificado pelo meu amor desumano. Deus-humano. Embriagado pelo sangue que escorre e deságua nas terras por onde piso, apesar de rasgar minhas roupas, vou abotoando meus quereres. Costurando com os espinhos a solidão, as cicatrizes arrogantes desabrocham como girassóis.
Amanhado nas mãos, meus fardos em pó, prontos para serem feitos maquiagem em meu rosto. Falta tato para a delicadeza. Essa estranha biografia dos minutos, a qual tenho me rendido abertamente – eu, dramático crônico – indecentemente abusa das rugas da minha pele. Qual será meu próximo endereço? Meu caixão desbotado, desenfeitado? Não me deram o endereço, apenas me deixaram com esse interesse talhado nos desvãos da pele. As esquinas da minha boca padecem, sobrepujadas forçadamente por sorrisos que nunca dei. Nem tão cego nem tão santo: a face da sombra, bela, esconde a penumbra original.
As solas dos meus pés não mais aguentam. Os espinhos já se tornaram parte da carne, parte do corpo. Nos brios da dor e da insensatez, atiro-me depersonalizando os rostos que carrego. As quinas do cotidiano, os rarefeitos e fortuitos encontros celebrados na loucura do dia – tudo tão impublicável quanto as mais remontas memórias de cada ser. O cansaço trabalha incansável e inalcançável na pele das pálpebras. Ele adormece uma parte da saudade. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

De tudo, ao meu amor serei atento.


O amor varou meu corpo. Inflamou minha carne, queimou minha língua sem esperar o café. Borrou o guardanapo, apagou o nome escrito à lápis. Escaravelho, corroeu minha carne, passeou pelo corpo como fosse ele quem habitasse, não mais eu. O amor veio e varou o tempo.

O amor varou o tempo. Fez-me esperar em horas compridas para desfrutar algo que se dilui nos lábios em questão de segundos. Varreu todo o cotidiano, limpou as gavetas e - como grande físico - deixou escapar meu endereço. Comeu minhas fotografias, traça delirante. Mandou lembranças da minha certidão de nascimento. Não deixou nem a memória dos meus aniversários.

Até as receitas médicas levou. Dopou-se dramaticamente, devorou as bulas. Foi mais longe: teve sua overdose com meus romances. Até as minhas cartas, do baralho àquelas que ficaram rabiscadas atrás do diário, sua fome consumiu. Roeu a numeração da página dos meus livros.

O amor deflorou meus romances. Ele, sempre escondido, filho bastardo.

O amor fez de mim um suicida sem bilhete. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Os analgésicos da dor alheia.


Entre o papel, a pasta de escritos e o lápis um pouco mais escuro (visto de longe, poderia ser confundido com um lápis de olho), alguns comprimidos espalhados. Anti-depressivos de uma existência informal, escondida entre os borrões no olho e na folha. O abandono dos traços, incisivos sobre as olheiras e tão fortes que deixavam o alto relevo no verso da folha – e nos reversos de quem escreve. Os clichês das tristezas e das faltas nunca deram conta, não sentia alívio nem com o sono pesado trazido pelos remédios. A serenidade disposta na sonolência de uma paixão que funebremente atarantava os lençóis do quarto, descompassava as músicas infinitas escolhidas – esses caprichos insólitos que a solidão vai entregando de bandeja. No inventário que fizera para si, nem as piadas ruins se salvavam. Bastavam aos dias serem toda essa fortuna de opióides.
O cansaço era a única coisa que, repetidamente, lhe fazia uma visita. Os parágrafos escritos, não acabados, as palavras não terminadas, as cartas não enviadas, o que mais havia para se fazer? Um olhar mais detido, e via-se nitidamente a pontuação fugir dos escritos, atravessar as possibilidades e também eclipsar as próprias roupas. Era a ressaca da dor. As reticências já não são mais hábito. As vírgulas não pausam nem separam, os dois pontos não anunciam. A escrita virara pintura. O lápis corria, desenhava o corpo em tatuagens descobertas sob as etiquetas. Fez dos dias-pílula um clássico da sua própria literatura.
Mas vaiava a própria insipidez. Ria-se desmesuradamente da própria desgraça: seu sorriso fingido de alegria, tingido pelo café e pelo cigarro no fim. Sua voz ressequida ressoava uniforme e seu púbere olhar de languidez embaçava a tez do mundo velho que ora ficava desarrumado. Chacinava o finito, deflorava o tempo. Não interrompia as inegáveis intersecções das mudanças de clima, de mês – os dias-pílula ainda surtiam o mesmo efeito. As horas não eram mais intervalos. Nem mesmo um trailer expectante do que poderia vir nas próximas.
Os analgésicos para a poesia mal acabada. Os olhos oblíquos que dissimulam notadamente, ou que acentuam os traços de Capitu – desde que isso foi escrito, procura-se onde pousaram, desta vez, estes traços. Os novos olhares, ou os sorrisos nervosos que ora explodiam em sua face langorosa. Padecia da insuficiência da solidão. Desavisava os lábios. Eram tapas consecutivas, para fazer entrar os remédios que entorpeciam o corpo e livravam da vertigem da liberdade. Dissolvidos no próprio sono, na sofreguidão dos dias maleáveis e intransigentemente instáveis, os comprimidos sufocavam a dor ainda mais para dentro de si. Conservava, úmida e avaramente, as palavras escritas entre uma dose e outra, entre um remédio e outro – guardava insidiosamente, na suspeita de alguém agarrar-se aquela dor. Egoísmo, sofrer a sós.
Os analgésicos, de tão arredios e cotidianos, faziam agora parte da dor diária. Não serviam mais para debelar aquilo que, rebeldemente, insistia no lastro das paredes do quarto. Tornaram-se tão somente um motivo – embora já não mais lembrasse o porque de estar se dopando constantemente. A cada comprimido engolido, uma dose de bebida forte fazia crer. Sobrava, apenas, a dor por si. Escapava a cada tentativa, e escrevia como que num surto. A dor oprime, e se oprime a ela quando não se deixa ir.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Dindi.


Qualquer canto, um dia que parece ser hoje.

Dindi, querida.
            Mal tenho tirado notas no meu violão. Nem tenho procurado, também. Não consigo me aproximar dele, as notas são tão já dele como esta dor é tão somente minha. E ficamos, nós dois assim, calados. Escrevo-te, não procurando palavras para qualquer coisa, nem a alegria que um dia por ventura possa ter atravessado meu sorriso – não posso querer fazer da dor minha ilusão. Tampouco reajo de imediato às coisas que me acontecem. Não pense que é por falta de força, ou algo do tipo. É que vivo nessa tensão de cordas de violino! Bem sabes, acredito.
            Estranhamente, tenho acordado mais tarde que o de costume. Meus dias, você sabe, começam junto com o caminho do sol. Tenho levantado, ultimamente, quando o ardor do sol já está posto. E com uma vontade louca – leia-se louquíssima- de voltar a ver um Almodóvar. Aquelas cores sobrepostas em tons rasgados, lúcidos, prosaicamente poéticos. As comédias em tons melodiosos, rimando com os personagens. Essa passionalidade presente no sangue espanhol, visto num filme do Pedro, ou mesmo aqui do lado, num tango argentino. Sim, o Belchior certamente canta, lembra? Deve ser alguma nostalgia irremediável do nosso tempo. É isso.
            Mas me conta, e você? Ainda imersa no seu poetinha? Ah, e por falar nele, você sabia – descobri essa semana, e fiquei completamente embasbacado! – que ele teve um romance com a Hilda Hilst?! Nunca que eu imaginava, juro! Mas deve ter sido uma paixão e tanto: a obscena senhora Hilst e o boêmio Vinícius, numa carta de amor tresloucada escrita a quatro mãos. É que os amores tem essas invenções meio bucólicas, mesmo.
            Eu sinto como se o mundo estivesse entrando por debaixo das unhas, eu me agarrando às minhas paixões de 15 em 15 minutos. Acabei por me desafiar a caber em qualquer canto – inventado ou não, dado a mim ou não. Ousado, eu e meu orgulho adentrando espaços intocados. Você me reclamava tanto, isso! Ah, Dindi, se tu soubesses.. Fico aqui, desembrulhado meus limites – as janelas abertas, o vento correndo pela casa feito criança. Ele atravessa meus restos, contidos nas caixas que ainda não desfiz. Te disse que me mudei pra esse apartamento aqui há pouco tempo?
            Pois é, acho que meus olhos cansaram da nossa casa. Tudo que produzi, desde a sua partida, foram olheiras e mais olheiras. Passava as madrugadas soluçando algum livro, lendo e escrevendo a conta-gotas – eu todo inflado na minha pose de escritor. Não que eu espere que as coisas mudem aqui, e que com meus incensos-mandalas-poesias-textos-músicas-e-canções-de-apartamento eu possa enfrentar tua ausência e te esquecer, como manda o figurino para amores mal-acabados ou mal resolvidos. Não tenho nem fôlego pra isso! Só estava muito abarrotado, com os olhos embotados das mesmas paredes.
            Nos meus fones de ouvido, continuam a transitar o teu poetinha, o Chico e o Cícero. Ainda ando na Paulista, com aquela camisa que você gosta e os óculos escuros escorregando no meu rosto. Aquela minha velha indisposição, meu comodismo incômodo, não me permite abotoar meus dias com alguma coisa diferente. Não sou tão escultor quanto você, meu bem. Meu humor intraduzível – irascível, você diz - passeia intermitente por cada hora. No volume de festas da cidade, não compareço a nenhuma delas. Meu hábito de ficar trancado em casa a maior parte do tempo vai roendo aos poucos essa borda espessa do cotidiano.
            Enfim. Por favor, ou por clamor, calor ou qualquer outra coisa assim – me dá notícias suas. Um beijo, do teu terno e eterno

M.

Post scriptum: você me ligou enquanto escrevia essa carta. Desculpe não atender.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Permanência.


Carrego um passado fragmentado que não é meu. Não me conheço. Pela janela, perplexo e inquieto, contemplo os encontros que despedaçaram esta alma. Esses fragmentos que se convulsionam chegam até a retina do meu olho estrábico – retorço um pouco mais. Dúvidas e arrepios percorrem cada recanto sempre que me sento pra escrever. Refugiava-me atavicamente entre as páginas de algum livro encontrado no meio do caminho, me esquivava do convívio forçado com as pessoas. Esquivava-me não, me esquivo. Escondi meus maiores segredos em fragmentos anotados, discrepâncias e distâncias que escrevia numa agenda. O indizível dos antigos dias minutados em poucas linhas. Rascunhei parágrafos que nunca passei a limpo, e só fizeram parte de uma única biografia – a da agenda.
Ante o miasma que vivia – perfilado entre as palavras que escolhi e os outros que fizeram -, via no futuro um empório circunstancial de tudo aquilo que até ali havia passado. Essa delicadeza com que dei o trato do que me era posto e oposto fizera de mim um bom observador. Ainda hoje, procurando e vendo este passado que nunca fora meu – nunca fora eu! -, pude distinguir esse eco estranho que não me pertence. Economizo a realidade, assalto essa memória implantada. Uma nódoa constante nisto que vivo.
Enveneno meus hodiernos dias com a literatura. Tardiamente vou compondo textos diluídos nas espumas desse cotidiano ingrato. Não vejo máculas em nenhum presente. Vou turvando o olhar – estrabismo imaginário – sem ignorar os acontecimentos. As coisas que nunca poderiam acontecer se realizam instantaneamente a cada passo prático, arbitrariamente. E nem mesmo na extremada afetação que tanto conjugo por onde passo, algumas delas não podem aparecer sequer como possibilidade. A indefinição pudica de tudo isto – da literatura, do passado que não foi meu, do cotidiano invisível – ou os limites que concatenamos aquilo que inutilmente chamamos de nosso.
Poderia me desculpar pelo adiamento de toda esta estória aqui colocada? Tenho abusado um pouco do direito de viver que me disseram que tinha. Tenho passado à passadas comedidas entre o passado não vivido – mas que me compromete por trazê-lo – e os excessos deste hoje impagável. Composto e consumido pelas dúvidas que gravitam em torno de mim, hesito e oscilo entre as variáveis dos dias obtusos a que me entrego (e que me foram entregues). Sou incapaz de mim mesmo.
Dormito meus sonhos na inconsciência dos meus nadas. Meus inconsistentes extremos se derretem a cada vez que chego neles – líquidos que são, meus extremos fluem. Nunca me chego, nem na inércia me preservo. Minha incoerência vaga. Disponho das leituras como verdadeiros sentimentos necessários. Sou muito sugestivo – carrego sentidos ocultos à luz do dia. Danço enquanto saem palavras das bocas dos outros.
Às avessas entre minhas sensações e esses doentios momentos a que chamam pensamento, multiplico meus pesares em doses distintas e empeçonhadas. Impávido, cruel, obstinado – sem a vergonha de estar logicamente certo ou formal – e ruidosamente escancarado, ao menor sinal de penhasco sinto um prazer diabólico em estar próximo. É-me incômodo o esforço de viver. A própria vida me dói – não desesperadamente, mas em sorvos. Não aplico minhas vontades, como quem golpeia o mundo por meio de ações. Antes me cedo inteira e intuitivamente à ela. Anular a carne, poupar esse súbito e exacerbado vício de estar amiúde em qualquer situação - o tênue testemunho do convencional suspiro de vida.  
Magoei-me só em ter nascido. Lamento a falta de tenacidade dos mundos infundados e afundados para sempre – porque não podem mais vir a ser mundos, seus tempos já idos. O passado encharcado de todos os aniquilamentos e mutilações em série que produzimos ao fazer uma única escolha. O passado é uma histeria. Sinto a vida inevitável.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Fome.


A fome não se guarda
no bolso.
Montes de coisas
se amontoam,
famintas de verdade.
Fabricando a fome
como quem tem riqueza.
E, posta na mesa,
a pobreza do homem.

domingo, 18 de novembro de 2012

Epifania.


Não acreditava mais que aquilo não existisse, embora a vida insistisse em me colocar o contrário. Colocar-me ao contrário, de frente para aquela possibilidade de impossibilidade. E envaidecida e furiosa vida, que atarantava minha existência fatídica em cotidianos urgentes, que usurpava minha capacidade de espanto e estuprava minhas antíteses tão desmesuradamente cuidadas. Tentava reunir apressadamente as partes quebradas em golpes indecidíveis, presumia minha falsa eternidade. Mas não sabia dizer tudo o que escrevo, meus inesperadamente frágeis lábios não conseguem se exasperar a ponto de deixar esses inacabamentos saírem à tona. Portanto, permaneço internamente inacabado. Inteiramente inacabado. Meio incompreensível estar anônima e atonitamente perto de intensidades que me perpassam, me devassam e me silenciam. Meus instantes são sempre os póstumos de alguém que andou por mim e deixou seus rastros caídos no meu corpo. Nas frinchas, nos pós vou descobrindo uma escultura. Modelando a partir de uma queda inevitável.
            O silêncio espesso que deixava a velar tudo o que habitava. Em seu útero, me furto tremeluzir entre um toque e outro o indizível que, com sua eterna complacência, se retorce inteiro, se debate e se choca contra os vãos e desvãos da pele em que me faço ser. A fuligem dos dia-a-dias que barulhentamente pululam entre um copo de whisky e outro, ou até mesmo outras pessoas que encharcam cada momento com suas mais variadas palavras – o vai e vem dos quadris tentam submergir instantaneamente os amores que procuram um espaço (corpo, olhar) para darem as caras (e as cartas, como de costume..). Pouco respirável esses minutos incontroláveis que assolam irremediavelmente. Depois da passagem daquela pessoa, que passou e levou consigo as consternações e deixou os mais lentos beijos – como no solo de blues que eu escuto enquanto escrevo – depois da sua passagem, a dor das flores ficou mais nítida. Encerrada nas microfísicas digitais, nas falanges macias dos dedos. Enfastiado de tanta deserção, de tanto afeto roubado, tanto beijo ladrado, tanto abraço por dar.
            A fome e a náusea. A tontura do amor não dado. As ruas forradas pelos passos apressados. Os sonhos vividamente despedaçados em cada esquina. Os rostos de sorrisos fugidios que tentam acalentar um minuto da existência alheia. Ou o alheamento de faces queridas. O hálito morno nas manhãs primaveris. A mordida doce nos lábios finos, bem delineados. A eloquência das palavras ansiadas, e soltas num suspiro qualquer. A cálida espera, depois de sonhos intranquilos. O carinho hirto, penando pra ser reconhecido. A saudade exasperada, tornada falta. A poesia não vivida. A degradação lenta da carne. As bobagens caídas em cada olhar. O talento não reconhecido. A incerteza de tocar ou não. Os erros inventados. As sortes envenenadas. As manias embebedadas. O deserto de almas.

A explosão irrefreável do prazer egoísta de cuidar de alguém.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Se eu fosse Jack Kerouac.

A noite lenta, quase um solo de blues. Molhava os lábios com um whisky caro, enquanto atravessava mais um intervalo ao acaso.

Ele não se dava (ao) tempo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Das Plantas que latem.



    Ao andar pelas ruas da cidade, percebe-se uma certa mesmice das figuras humanas que se fazem (ou pelo menos, em certo aspecto, tentam não se distrair) presentes ali. Os passos de raquitismo encontrados em flancos que se confundem com aquele que anda denunciam a chegada do já conhecido por aquelas bandas. E, transitando pela obviedade do contemporâneo, surge a escrita de Hélder Herik. Emerge condensada de uma obviedade amplamente recriada e exaustivamente trabalhada, para não dar a impressão de profundidade (acontece exatamente o contrário: poemas sucintos e extremamente carregados de profundidade) aos seus poemas e textos que recortam o jornal do homem moderno, e principalmente, o garanhuense. Perpassada pela tradição e modernismo, sua escrita emblemática parece dizer bem mais do que queria (ou deveria).  
    Esse desvelar da obviedade não quer dizer simplesmente trazer à luz o óbvio, aquilo que está ali o tempo todo e poucos percebem. O poeta recria a obviedade, ambientada pela tradição e cortada pelo modernismo tecnológico, revendo todo o trajeto existencial próprio do homem-agreste. Partindo da vivência, quase que exclusivamente tradicional, e sendo visto num complexo de significados que afundam sua vivência, o poeta transforma o cotidiano por meio de embaralhamentos contínuos entre as relações que constituem o paradoxo apresentado. O homem deixa de ser apenas um ente simbólico, idealizado e formado pelo jogo de palavras que compõem a escrita, para se presentificar e vivificar a poética de Hélder.
    O crescimento dele e o descortinar do mundo se embaralham o tempo todo, e dão vida a mágicos encontros. Do totemismo da tradição ao tecnologismo cibernético; da sua rua, a Gervásio Pires, aos computadores mundiais; da família e amigos aos desconhecidos e anônimos que se entrelaçam através das redes sociais. Essa dialética atinge o escritor e é tingida por ele por cores, formas, sons, visões, cheiros e diversificações que tornam o mundo um ambiente de pura dislexia.
    A sensível preocupação do poeta em passar novamente por cada palavra, visitando-a em seus mais recônditos melindres, é, talvez, a marca mais vista. A não precisão de cada descortinar e as possibilidades semeadas frente às palavras arrancam na frente todo um turbilhão de possíveis sensações, que interpretam por si mesmas a linguagem de criação própria e que remetem a sentidos carnosos. Emergem os “tutanos”, de dentro da ossificação em que se tornou a poesia nos últimos tempos, fazendo com que a visibilidade não se fixe no exterior.
    Restaurando a intimidade dos próprios sentidos das coisas, a relação entre o poeta e essas coisas se renova, transmutada em diretas e essenciais capturas daquilo que se apresenta. Levada à exaustão e com a finitude batendo à porta, a percepção agora se transfigura num contínuo lembrar-se de si e do antigo em que se viveu, esculpindo em seu próprio povo (corpo) as marcas e traços que o caracterizam.

Hélder é um paisagista agrestino. 
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