As palavras são a náusea do vazio. A solidão e a angústia, filhas da mesma substância escura da noite absoluta e impenetrável – esses dois sintomas da doença literária.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Passagem concretista.
E eu me pergunto
até quando
devoro,
até quando
vomito,
até quando
até quando.
Até quando
me devoro,
vomito.
Até quando
me pergunto,
vomito.
Até quando
vomito,
me devoro.
Até quando
vomito,
me pergunto.
Até quando?
E depois
expulso.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Outros Mofos.
Caio.
Tô te escrevendo na madrugada quente,
num apartamento que não é meu. Não sei como começar, na verdade. Uma citação
tua, ou da Clarice. Ou outra assim. Não sei. Lá se vão – quantos, mesmo? –
dezessete anos desde que tu deixou tuas coisas do mesmo jeito, sem mudar nada
de lugar. Eu era ainda bebê, velho. E senti tua urgência.
Aqui tá quente. Não me sinto tão
aquecido. Mas tá quente. Tenho essa semana longe de casa, vestindo preto o dia
todo – já me acostumei. Um supermercado aberto o dia in-tei-ro aqui na frente,
imagina? Ah, mas falta dinheiro. No player, a voz do Cícero embalando meu
cansaço. Não tenho dormido bem. E não consigo deixar de te ver. O tempo todo,
profundamente e misticamente no meu dia. Não é que eu queira deixar, ou que
escrevo pra te exorcizar. É força e carinho. Mas é difícil me dar com a
impossibilidade ontológica de não te ter aqui. Assusta, cara. E tu não tem
ideia do quanto.
Sim, sou um cara que permanece na
hesitação do corpo. É quase imperecível, você sabe. Fico me batendo no
apartamento, a uma e meia da madrugada. Soa inconveniente, mas não. Sabe aquela
desintegração, que atravessa a noite, vara a madrugada, esburaca o dia, enovela
a tarde? A sensação profetizada, sempre: aquele medo de rejeição. O medo amputado
da própria sobrevivência. Então. Fico aqui olhando pra ela, projetando minhas
possibilidades carcomidas desde sempre. Tenho pressa, Caio. Não sou impaciente.
Mas tenho pressa.
Sou tão fresco e neurótico quanto você. Coisa
de escritor, talvez. Eu, pelo menos, me penso escritor. Mas tô muito longe. Vivo
um melodrama cotidiano desfiado nas palavras. Vez-em-quando apelo para a
astrologia – o ‘apelo’ não foi agressivo, por favor -, tentando desenhar no
mapa essas minhas disritmias. Demorei pra entender que eu sou também o que
escrevo, e não só. Me exilei em outra cidade – uma semana só, ainda não sou tão
grave – pra tentar alguma coisa. Não me pergunte o que, eu não sei. Mas me vi
dentro de um segredo nem tão secreto assim. Mas permanecerá silenciado, por
enquanto.
Queria morar no Passo de Guanxuma. Não,
não um personagem seu – por mais requintado que possa parecer. Muito perigoso,
talvez. Tenho tanta coisa pra escrever, sofregamente pronto dentro de mim. Um
livro de contos, o primeiro. Sem nome, ainda. É um estado de nuvem. Tudo
nebuloso, lamacento. Queria um cigarro. Queria não: quero.
Pausa. A madrugada varada.
Fico olhando pra minha estante – teus livros
todos emprestados. Não sei se voltarei a vê-los. Sou inábil para dizer não. Mas também não me frustro assim. Nem me amargo
tanto.
Mas olha, hoje é seu aniversário. Não vou
sair escrevendo aquelas baboseiras tradicionais – você deve estar cansado de
ouvir isso. E eu tô cansado de dizer, também. Fico olhando pra minha pedra
esotérica de touro, um quartzo rosa que tenho há uns quatro anos – essas coisas
me lembram de ti.
Vim me confessar, também. Eu sei que
você tá longe daqueles monges – um obsceno senhor C, talvez. Acho que tô no
limiar, no limite branco, Caio. Caio. Ali naquele estado de torpor-amor – os olhos
brilhando. Purpurina sólida. Ah, isso: te desejo muito líquido e purpurina,
querido. Sem inventários, mas sempre o irremediável. Ir-remediável – faz uma
tremenda diferença. Desequilibra a calma, sabe?
Acabei de ver a chuva mudar e direção. Um
balé clássico, seduzido pela Ana Botafogo e as notas saídas na voz da Amy
Winehouse. Acho que você gostaria dela – porra louca, uma literal casa de
vinhos mesmo!
Li tuas cartas. Gostaria de receber uma.
Mas te mando essa. Publicada em qualquer canto, pregada na parede feito anúncio
de venda talvez. Leio teus livros – tenho um conto escrito pra você. Ainda quero
aprender a tocar piano. Tocar uma peça do Brahms, medonha e melancólica. Um copo
de vinho – talvez vodca – em cima do piano. Cafona. Fico catando as dores pra
ver se sai algum texto. Na frente do computador, em alguma rede social e quase
sempre ouvindo alguma coisa.
Talvez se você estivesse aqui, doesse
menos. Talvez não. Ou talvez nada mudasse. Mas sinto que seríamos irmãos,
primos, cunhados, amantes, pessoas que se traduzem aos amassos quando bebem
demais. Desculpa, sou mesmo assim confuso. E às vezes quero me aproximar de
você da única forma que sei: escrevendo. Sou taurino com ascendente em câncer –
aquela sensibilidade nunca pós e sempre pré tudo. Com marte em leão e plutão em
escorpião.
Mas também somos muito diferentes. Te escrevo
também por isso: pra cuidar de mim, e de ti. Por esse meu querer violento e
exacerbado. Por essa tua compreensão encantada e desoladora. Por tudo. Por falta.
Por amor. Por você.
Um abraço, com carinho e cuidado. Onde quer
que estejas.
Com saudade e o amor de sempre – não é?
E um beijo, Caio.
Matheus.
sábado, 7 de setembro de 2013
Na espuma.
em goles secos.
Os corações na sargeta,
pisados, ancorados
no destino dos passos
errados, rápidos,
ríspidos. Amor é uma
palavra pequena,
cabe em qualquer boca.
Cabe no beijo roubado,
sempre na ponta
da língua molhada.
Escapulo no arco
da vida, na flecha
do dia apontada
pelo cupido. A velha vida
adiada fica
mais próxima, a vida
antiga
agita
e grita
na mesa.
Eu torno mais um
copo que
desce em goles secos.
Não decido
à última hora.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Os Dragões conhecem o paraíso.
Inaiza.
Acho que você gostava de me ver pintado de palhaço. Meus olhos inchados de lágrimas que você me mandou não soltar. E o sorriso pintado, vermelho sangue. Só daquela vez me vi assim, dentro do meu próprio horror. Chamando atenção pela cor, eu sempre invisível pra mim mesmo. Mas olha, guria, só você.
Te escrevo por entender. Não que eu me entenda, ou que você me entenda, ou que me faça entender por escrito. Mas por entender, tão somente. E a poesia disfarça comigo. Me vi com o corpo feito garganta, pra ser voz. A pele pedindo libertação de mim, livre da total dependência da confissão em primeira pessoa. No silêncio, sem o suicídio da palavra e na presença de um fôlego manso, vi teus dragões - tão coloridos e teus. Eu, sisudo, ressentido pra sempre por ter nascido - esse era um alvo certo seu, quando brigava comigo -, desaprendi a sorri com os dentes. Sorrio com os lábios, tão somente. Ou com os olhos.
Te escrevo num instante. Involuntário. Escrevo lembrando dos teus livros de auto-ajuda, tua cara de segunda-feira - é muita ironia se dar bom-dia numa segunda -, das nossas ressacas de café e gargalhadas. Ficava besta te vendo trans-formar essas frases de altar-de-bar em pequenos post-its diários, quase pílulas de sanidade. Me transtornava com teu sentido sagrado introvertido e profundo. Era a partir dele que tu batia de frente com meu saudosismo, meu orgulho - se tu não quebrar essa redoma, menino, eu mesma quebro. Verdade espantada e espantosa: eis que sinto que.
Te escrevo também o que pensei e não escrevi. No escândalo do teu sotaque arrastado, cantando as mais altas dores nas madrugadas. Até os desvios em vão - desvãos. Puro estado clariceano, com flores da Cecília que tu me deste - teu último presente, todo grafado. Ganhaste meu presente no meu aniversário. E sabe: não tenho conseguido viver um dia por vez, nem mesmo um por semana. Permaneço naquela fatalidade inócua que me conheceu. Quero dizer: sem descrever espelhos.
Te escrevo insistente. A lua cheia é uma insônia. Entorpece como amor. Respiro ofegante, atropelando o vento. Cortando suspiros no meio, pra não escapar saudade. Autossuficiência sempre foi um nervo desligado de mim. À flor da pele, mesmo, só aquela pressa solta de ter-ser tudo ao mesmo tempo. Descobri, olha só, que nasci no século certo, no tempo certo - no tempo da preguiça. Exposto às intempéries e tudo o mais, me debato intolerável no claustro que só tu, por mais ferida que estavas - e olha que advinhávamos um ao outro e outro ao um em pouco menos de alguns minutos -, desafiava e entrava sem perguntar, jogando o casaco na sala e dando abraços com os dentes rangendo.
Te escrevo existindo. Você me disse que, um dia, me daria a mão e me levaria para fora disso que eu construí. Você me fez belo, me fez maldito, me cantou, me encantou. Sempre pensei que você nunca teria como cumprir tudo o que você me disse. Impossível.
E veja só - eu estou errado.
Te escrevo também o que pensei e não escrevi. No escândalo do teu sotaque arrastado, cantando as mais altas dores nas madrugadas. Até os desvios em vão - desvãos. Puro estado clariceano, com flores da Cecília que tu me deste - teu último presente, todo grafado. Ganhaste meu presente no meu aniversário. E sabe: não tenho conseguido viver um dia por vez, nem mesmo um por semana. Permaneço naquela fatalidade inócua que me conheceu. Quero dizer: sem descrever espelhos.
Te escrevo insistente. A lua cheia é uma insônia. Entorpece como amor. Respiro ofegante, atropelando o vento. Cortando suspiros no meio, pra não escapar saudade. Autossuficiência sempre foi um nervo desligado de mim. À flor da pele, mesmo, só aquela pressa solta de ter-ser tudo ao mesmo tempo. Descobri, olha só, que nasci no século certo, no tempo certo - no tempo da preguiça. Exposto às intempéries e tudo o mais, me debato intolerável no claustro que só tu, por mais ferida que estavas - e olha que advinhávamos um ao outro e outro ao um em pouco menos de alguns minutos -, desafiava e entrava sem perguntar, jogando o casaco na sala e dando abraços com os dentes rangendo.
Te escrevo existindo. Você me disse que, um dia, me daria a mão e me levaria para fora disso que eu construí. Você me fez belo, me fez maldito, me cantou, me encantou. Sempre pensei que você nunca teria como cumprir tudo o que você me disse. Impossível.
E veja só - eu estou errado.
domingo, 11 de agosto de 2013
Abstinência.
A
felicidade é uma cartada. A final, talvez. Talvez seja uma carta na manga, uma
hora qualquer. Num golpe de vista, toda a procura se esvazia. Fica só o
caminhar esvaído. A centelha cintila, mas fagulha. Na solidão de palidez
monástica, um fôlego ignorante insiste. Insiste em mim. Insiste no sorriso
forçado, na conversa involuntária e póstuma aos goles de café. Insiste na minha
peregrinação urbana constante, nas andanças que cansam o corpo e consomem a
alma. Chega a ser obsceno como se insiste na insuspeita.
Incendiadas,
todas as possibilidades pululam. O inventário: lembranças dilaceradamente
vivas, nem tão longínquas; a vida flui rápida demais. Clandestina é a felicidade,
secreta talvez. Tardia. Tão completamente embriagante que turva a visão.
Destilada, duplo malte. O calendário se faz relógio: os dias ampulhetam. Sem
temperanças.
Não
se abstém. A sensibilidade não é termômetro. Às cegas, todas as juras enfeitam
as palavras. Rasga-se a tranqüilidade, um diário envelhecido. Sujam-se as
cobranças como o falso mel da candura. Descaminha-se, se desconversa. A
insistência é quase um auto-exorcismo da honestidade. Se entorpecer de calma é
privar-se da paixão. Aniquilar a entrega freia os instintos. A solidão da
felicidade é incompreensível.
Inventando
para si toda a sorte de acontecimentos e privilégios, mexe-se na infância, no
olhar, no sexo, nas mágoas, nos desesperos, nos tormentos. A epígrafe da
felicidade é escrita no sorriso. A vontade descabida aborta as lágrimas. O
lirismo embasbacado, a completude bêbada – oscilam as obsessões. Descansam na
prateleira do silêncio os verbos mais intransitivos, mais intransitáveis. Não
existe amor na felicidade.
Engasgada
pela náusea do tempo, a memória não reabilita os afetos. A felicidade
impossibilita que se tateie outro corpo. Cruel, se satura permanentemente. Seu
pulmão é o egoísmo. O equilíbrio delicado dá lugar a uma áspera sonolência – o coração
volta a ser um órgão. Apenas sabe-se que bate. Mal se advinha a face feliz.
Meu
coração faminto apenas rebate. Meus sorrisos amassados. Uma tatuagem em
nanquim. Minha felicidade não alivia. Minha felicidade é um cupido gótico, de
asas angelicais, espartilho e sorriso sussurrado.
domingo, 4 de agosto de 2013
Ode ao café.
O
café é inevitável. Ele é a verdadeira crônica. Crônico. Uma verdadeira
literatura em pó. Durante as xícaras, somos hipocritamente imortais. Um e outro
gole amargo para desfazer o agridoce do bom dia. Um vício sinuoso. Ainda
acumulado de sono, deslizo me oferecendo ávido para aquele pó preto. Duas
colheres cheias, e uma de açúcar. No último gole, o que fica atravessado na
garganta é o cotidiano.
É
um ritual. Com o perdão da pieguice subjetiva, errá-lo traz uma carência sem
precedentes para a história do dia. O gosto do café no beijo de despedida é
quase uma obscenidade: a língua escorrega com lascívia em direção à outra. Fica
a sensação de beijo tardio, que deveria ter sido dado há minutos atrás. As
mãos, ressecadas de carinhos antigos, seguram a xícara com a firmeza de quem afaga
os cabelos. Os olhos sibilam desnecessários, vagando entre as bandagens pós-modernas
e sendo cúmplice de certa invisibilidade matinal.
No
meio da manhã, da tarde, da noite, da guerra, da madrugada, da sala, do quarto,
da fome, o inelutável. A sede de café rasga, queima. Não se adivinha o café.
Sem escapismo nem medo, a longa e áspera solidão do cafezinho destrona a
solubilidade das próprias esperanças. Austera e cruel, a boca que se enche nos
goles procura uma outra boca funda e úmida, também desenganada pela hipocrisia
imortal.
Assim
como o cigarro, e ainda mais do que ele, o café é um instrumento do silêncio. O
líquido manipula os lábios, a língua, os dentes, o hálito. Tudo o que sobra – e
quanta responsabilidade nisso – são os beijos. Tão intensos, quase tão místicos
quanto a sensação de areia seca antes deles. É sim intuição. É todo esse
alvoroço químico-místico que vira furacão numa fração de segundos. Segundos
contados a goles. E o tempo crispado nas mãos, dissolvido junto na xícara.
Na
impiedade dos jornais atirados nas calçadas, das ressacas etílicas e
emocionais, na relutância das roupas penduradas nos armários, no embuste dos
compromissos adiáveis e odiáveis, no inconsolável momento de deflagração apaixonada
do olhar de quem ama – o café é o afeto mais forte do dia.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
A Divina Comédia.
Se o inferno são os outros, é inaceitável que eu mesmo seja um paraíso qualquer. Errante, passo uma temporada no inferno não como retardatário, mas como habitante. Aqui, é como se tudo se suspendesse, e algo latejasse incessantemente - a carne revirada, crepitada pelo desejo. Todos os vinhos correm pelo sangue, toda a vida aberta ao derramamento do sangue bombeado pelos olhos. Observo os bêbados: abençoados sejam por permitirem a fluidez.
A amargura da beleza se põe como o sol - o poente de uma veia esticada pela morte. Ridicularizado, o riso febril da passagem abre o festim do desespero contemplado - embriaga. A origem gótica do sofrimento. A ancestralidade da solidão compactada num corpo desprovido de profundeza. Perdido no plano da pele, vagava senil a poética crueldade, tão crua e áspera que era o abjeto de deus. A perdição crua era sublime: a revolta violenta do corpo contra o espírito intempestivo. Ímpeto e fúria, romantismo exacerbado, a fundação da nova sensibilidade como envenenamento dos sentidos.
O inferno pelo orgulho, o inferno pelo amor, o inferno pelo ódio, o inferno pela doçura, o inferno pelo silêncio, o inferno pela fatalidade. A sinfonia da marcha fúnebre numa ópera transformada em batimentos cardíacos. O pântano libidinoso da carne humana lacerada pelas mais variadas e desvairadas bocas, a confissão delirante dos afetos tatuados e envolvidos em si mesmos, a delicadeza da mentira roubada dos céus, feito asa para voar sobre a moralidade. Num sussurro mortal, todas as outras vidas estão condenadas, nenhuma outra é possível. A tristeza desconhecida é o punhal da mão esquerda que mata a alegria herege.
A figura humana desprovida de segredos, tão imponente e vagabunda que a liberdade se fez província. Assustadora e visceral, provoca o assassínio das imagens. Cada vez mais distantes, sem glórias vãs nem patéticas saudades amistosas. A poesia é uma maldição concreta. O silêncio escrito, a geometria da vertigem desenraizada. As lágrimas são sêmen, todos choram o gozo. O sexo é o mais alto posto. O horror do divino, a invenção dos instintos, a profanação dos mistérios. Minha solidão matou a morte.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Carmen Maura e Marisa Paredes perderiam pra mim.
Sim, sou uma das mulheres do Almodóvar. Mas as ultrapasso em dramas e crônicas. Quente, forte, à beira de um ataque de nervos, histérico que sofre de arte crônica - um mau hábito, talvez. Meus segredos floreados, flores de túmulo, flores do meu corpo. Em pele e em pelo, arrepiado. Daqueles que não disfarçam o incômodo sem transformar-se numa estátua de sal. Uso o salto alto das palavras, de onde componho meus melodramas - seja esburacando minhas entranhas e atirando-as, seja implodindo os ossos do ofício a cada vez que me dedico. Flerto com a loucura sustentando a violência dessa paixão descarnada, expulso os amores para a pele - eles me sufocariam se permanecessem incólumes.
Carrego a alma assim. Sem maquiagens exóticas - no choro, o que borra é o rímel do tempo - nem pesadas, não sei esconder minhas fatalidades. Meus afetos prismados, assim, incontroláveis e espalhafatosos são arrogantes de tão brutais. As cores berrantes se encontram diluídas no meu sangue, nota-se pela palidez vanguardista da minha cor. Não choro pelas partidas, mas desespero pelas ausências. De constância, só esse enredo almodovárico. Não, não sou estável. Nem um pouco. Sou um perpétuo indolente, que oblitera a vida para sangrar à arte.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Inferno Outro.
Você não precisa de mim. Tenho aceitado à cada
pôr do sol. E a cada nascer do sol, a iluminação da minha impossibilidade. Não
sei dos teus passos, dos teus olhares, dos teus prazeres, das tuas vontades,
dos teus anseios, dos teus orgasmos, dos teus ódios, das tuas distâncias, das
tuas vaidades, dos teus medos, da tua felicidade. E por mais que me faça teu,
nunca serei teu vício. Para mim, egoísta, te basta me ter – te satisfaço ao me
oferecer. Alimento-me da tua voz, dos teus abraços, dos teus olhares para mim,
das tuas mordidas e tapas que me selam dentro de mim, cada vez mais teu. E o
medo sobrevém com a certeza de que bebes em outras fontes, tua vida tua
encontra outros corpos que te oferecem prazeres altos, gritos formatados pelo
teu desejo. E me contorço, ardo em desespero – não te devotas a mim. Tuas
ironias com outros, tuas fantasias delirantes onde nem minha sombra se inclina,
as brincadeiras escorregadias que te deslizam: não impeço, nem à revelia do meu
próprio despudor. Meu amor não te consome. Mas posso te matar. Sufocada com
meus excessos, inclusive esse. Por mais que aceite o fardo da distância, me
será inaceitável conduzir meus dias sem as tuas aproximações e confidências.
Mas há outros olhos, outros ouvidos, outras bocas, outros braços. E não impeço.
Não tenho desculpas, apesar das vontades. Nem posso buscar. Não impor minha
procura, minha desesperança cardíaca a bater caoticamente atrás de ti. Minha
solidão se disfarça nas horas nuas. Enlaço tuas pisadas, tuas risadas (mesmo as
provocadas por alguém) nos meus carinhos invisíveis, desenhados na fumaça do
teu cigarro. Meu coração selvagem e hostil, intumescido por tua saliva, na
latência muda que desobedece. Minha sagrada incompletude, oblíqua por reclamar
espaço e toque, a falta tátil ontológica que me absorve. Ando como exilado do
meu próprio corpo, expulso pelo silêncio que oscila entre as chamas da minha
própria ilusão. Sou teu inferno. Teu demônio que assombra na própria sombra. O
grito que silencia a dor, e faz ouvir a insurreição do tempo que corrói por
dentro da carne. O anjo caído que desfalece os desejos e inebria o peito.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Ela se vestirá para mim neste festival.
Em silêncio, a voz embargada. Algo tão nosso que nem precisa invadir o mundo alheio para ser ouvido, ou sentido. No deslize dos sustos maquiados, a fumaça dos cafés quentes dispersando o tanto de frio. Os lábios finos contornando o cigarro, desenhando um batom inexistente que eu teimo em contornar. Fumo e aroma sustentando nossa névoa. Cenas diárias cortadas como um frame de um filme que vive em cartaz na antessala do amor. O vestido de rendas dá vazão à desejos: vazam meus olhos passeando desenfreadamente pelos traços do seu corpo vestido. Adentro seus poros, e me dispo - das roupas e das distâncias. Imerso já na saudade dos próximos instantes - não por antecipação, mas por nudez que desespera a própria solidão -, trocamos as bocas, sem mentiras. As línguas não professam, não falam: estão muito ocupadas no seio de suas próprias sedes. Os olhares se solubilizam, abandonados na liberdade sem fim dos solos de blues. Esculpindo a luz, porque até a sombra precisa dela para ser viva, com a fraqueza da certeza e a franqueza das mordidas, ela se troca. Se troca, se despe, se veste, se gargalha, se soluça, se versifica, se poetiza, se ama e me ama. Tanto. Nossa sinfonia de amor e pranto, nossas fotografias em branco espanto, nossas delicadezas atrevidas: tudo desabafado no decote dela e nos botões da minha camisa.
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